top of page

CANTIM DA PNEUMO 2025- PARTE II

  • Foto do escritor: Dylvardo Costa Lima
    Dylvardo Costa Lima
  • 8 de out. de 2025
  • 39 min de leitura

Atualizado: 29 de dez. de 2025


Pecado imunológico: como as primeiras infecções por gripe de uma pessoa determinam a imunidade ao longo da vida

 

Artigo publicado na Nature em 17/12/2025, onde pesquisadores de diferentes nacionalidades afirmam que estão se esforçando para entender o impacto que um fenômeno conhecido como pecado antigênico original, tem de influência sobre a imunidade duradoura ao vírus.

 

Todo verão, Aubree Gordon, epidemiologista da Universidade de Michigan em Ann Arbor, passa cerca de um mês em Manágua, na Nicarágua, durante o auge da estação chuvosa. Mas Gordon está interessada em um tipo diferente de estação. "Em junho ou julho pode ser o período de pico da gripe na Nicarágua", diz Gordon.

 

Desde 2011, ela e seus colegas do Instituto de Ciências Sustentáveis ​​(Sustainable Sciences Institute), em Manágua, vêm monitorando infecções por gripe, vacinações e respostas imunológicas em centenas de crianças inscritas no estudo Nicaraguan Pediatric Influenza Cohort (NICIC). O trabalho faz parte do estudo mais amplo Dissection of Influenza Vaccination and Infection for Childhood Immunity (DIVINCI), que acompanha cerca de 3.000 crianças nos Estados Unidos, Nicarágua e Nova Zelândia, a maioria delas desde o nascimento. Por meio do estudo de anticorpos, células imunológicas e genomas virais, os pesquisadores esperam compreender uma característica misteriosa da resposta imunológica humana ao vírus da gripe, que está em rápida evolução.

 

A gripe frequentemente altera as proteínas em sua superfície, de modo que, ao longo da vida, uma pessoa entra em contato com muitas variantes ligeiramente diferentes do vírus. Mas o sistema imunológico geralmente se mantém fiel ao que funcionou anteriormente. "Nossas primeiras exposições aos vírus da gripe na infância preparam respostas de anticorpos que duram a vida toda", afirma Scott Hensley, microbiologista da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia.

 

Esse fenômeno é conhecido como pecado antigênico original (PAO), e a palavra antigênico deriva de antígeno, que se refere a qualquer parte de um vírus à qual um anticorpo se liga. O termo PAO foi cunhado por pesquisadores que, na década de 1950, perceberam que a maioria dos anticorpos que se ligam ao vírus da gripe, e que circulam no sangue das pessoas, correspondem às cepas de influenza mais prevalentes durante a infância delas.

 

O surgimento das gripes suína e aviária possibilitou a observação da Autoimunidade Objetiva (AO) em ação, devido à sua capacidade de proteger pessoas, que haviam sido expostas a cepas semelhantes da gripe décadas antes. No entanto, é difícil prever quando essa predisposição a anticorpos "retro" ajudará ou prejudicará as respostas imunes às cepas atuais e às vacinas atualizadas. Algumas evidências sugerem, que a tendência do organismo de reforçar respostas imunes antigas para combater infecções, pode limitar sua capacidade de detectar partes do vírus da gripe que sofreram mutações recentes.

 

Agora, pesquisadores estão tentando definir a base biológica da AO e desenvolver vacinas que possam tirar proveito dela, ou mesmo superá-la, para gerar imunidade contra uma variedade maior de cepas da gripe. Estudos longitudinais como o DIVINCI estão prestes a fornecer os dados necessários para tornar isso possível. "O desafio para a vacinologia é entender como trabalhar melhor com a memória imunológica disponível", afirma Sarah Cobey, virologista evolucionista da Universidade de Chicago, em Illinois. No entanto, as mudanças nas políticas dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA, sob a administração do presidente Donald Trump, criaram incertezas sobre o financiamento futuro desses estudos.

 

Impressão imunológica

 

O benefício do pecado antigênico original foi claramente demonstrado em um estudo de 2016 que é frequentemente creditado por reacender o interesse generalizado no fenômeno. Nesse estudo, os pesquisadores usaram modelagem estatística para correlacionar os anos de nascimento das pessoas, com o subtipo de gripe ao qual elas provavelmente foram expostas pela primeira vez.

 

O tipo mais comum de influenza, influenza A, apresenta-se em vários subtipos, nomeados de acordo com suas proteínas de superfície: hemaglutinina e neuraminidase. Essas proteínas H e N apresentam diferentes variantes, e os subtipos da influenza recebem o nome da combinação de proteínas presentes. Os subtipos predominantes nos últimos 100 anos, por exemplo, são H1N1, H2N2 e H3N2. Os subtipos que infectam pessoas se dividem em dois grandes grupos com base na hemaglutinina presente: os vírus do grupo 1 têm H1, H2 ou H5, e os vírus do grupo 2 têm H3 ou H7.

 

Como a maioria das pessoas é exposta à gripe até os três anos de idade, Hensley afirma que “o ano de nascimento, realmente serve como um bom indicador de como foram nossos primeiros contatos com a gripe”. Por exemplo, pessoas nascidas entre 1918 e 1957 têm maior probabilidade de terem tido H1N1 (o vírus causador da pandemia de gripe de 1918) na infância.

 

Os pesquisadores do estudo de 2016 combinaram esses dados de probabilidade com dados de vigilância da gripe sobre dois subtipos de influenza aviária que surgiram nas décadas de 1990 e 2000, H5N1 e H7N9. Eles descobriram que, pessoas que provavelmente foram infectadas com um vírus do grupo 1 na primeira infância, apresentaram maior proteção contra o vírus H5N1 do grupo 1 posteriormente na vida. Da mesma forma, aqueles cuja primeira exposição à gripe foi causada por um vírus do grupo 2, estavam mais bem protegidos contra o vírus H7N9 do grupo 2. Os pesquisadores denominaram esse efeito protetor de "impressão imunológica". Embora frequentemente usado como sinônimo de síndrome de ativação oligoclonal (SAO), o termo "impressão imunológica" descreve o efeito da exposição à gripe na primeira infância em todo o sistema imunológico, e não apenas nos níveis de anticorpos.

 

Diversos estudos posteriores, descreveram o papel dos anticorpos na proteção conferida pela impressão imunológica. Os anticorpos circulantes no sangue podem ajudar a impedir que o vírus da gripe se ligue às células e as infecte. Em um estudo publicado, Cobey e Hensley descobriram que pessoas nascidas antes de 1968, e, portanto, provavelmente com imunidade adquirida por um vírus do grupo 1, apresentavam os níveis mais altos de anticorpos capazes de se ligar, bloquear ou neutralizar uma cepa do H5N1.

 

Os pesquisadores também examinaram amostras de sangue coletadas durante os ensaios clínicos de uma vacina contra o H5N1. Em adultos mais velhos, os níveis de anticorpos neutralizantes contra o H5 já eram altos, e a vacina proporcionou apenas um pequeno aumento. Em crianças, por outro lado, a vacina elevou significativamente os níveis de anticorpos, partindo de um ponto inicial baixo. O resultado sugere que, em caso de uma pandemia de H5N1, as autoridades de saúde pública devem priorizar a vacinação de crianças em detrimento dos adultos mais velhos, afirma Hensley.

 

Estudos sobre imunidade adquirida tendem a se concentrar na resposta de anticorpos à proteína hemaglutinina do vírus influenza A. Mas Hensley e Cobey descreveram uma resposta de anticorpos com imunidade adquirida contra outra proteína de superfície do vírus influenza A, a neuraminidase. Entretanto, uma equipe liderada pelo imunologista Marios Koutsakos, da Universidade de Melbourne, na Austrália, demonstrou evidências de que a impressão genômica afeta os níveis de anticorpos circulantes, que têm como alvo uma forma menos comum de gripe: o tipo B.

 

Lembranças

 

Os anticorpos circulantes são apenas uma linha de defesa contra a gripe. Células imunológicas chamadas células B e T, também se lembram de infecções passadas e agem rapidamente para proteger o corpo de patógenos conhecidos. A síndrome de ativação oligoclonal (OAS) e a impressão genômica, são importantes durante essa etapa de reativação.

 

Em 1956, a equipe de pesquisa que descreveu originalmente a Síndrome de Ativação Óptica (SAO) relatou que, após a vacinação com uma das várias cepas do vírus influenza A, as pessoas recebiam um reforço de anticorpos que se ligavam à cepa com a qual haviam entrado em contato na infância. As pessoas ainda produziam anticorpos específicos para a cepa vacinal, mas geralmente em quantidades menores do que os anticorpos específicos para a gripe da infância.

 

Os imunologistas agora sabem que esse efeito resulta de uma combinação da memória imunológica normal e de um vírus que sofre mutações rápidas. As células B de memória, memorizam características tridimensionais das proteínas do vírus influenza, chamadas epítopos. "Essa é provavelmente a base imunológica do que hoje chamamos de impressão imunológica", diz Hensley.

 

Mas a constante mudança no perfil dos epítopos do vírus influenza complica esse processo. As células B de memória podem produzir anticorpos com tanta eficiência, que outras células B recém-expostas, perdem a oportunidade de se ligarem a quaisquer epítopos novos ou alterados e formarem memórias. Isso pode ser um problema para as vacinas anuais contra a gripe, que visam estimular a imunidade a novos epítopos que surgem como resultado da evolução viral.

 

Os pesquisadores não sabem até que ponto essa competição entre células B virgens e de memória, se manifesta quando as pessoas são infectadas ou vacinadas. Mas estudos com animais estão fornecendo algumas pistas.

 

Em 2023, o imunologista Gabriel Victora e sua equipe, da Universidade Rockefeller, em Nova York, demonstraram, que as células B de memória têm maior probabilidade de predominar em uma resposta imune, quando um animal é exposto a duas cepas idênticas ou muito semelhantes em sequência. Em camundongos que foram infectados primeiro com uma cepa de gripe chamada PR8 e, meses depois, receberam uma injeção de hemaglutinina PR8, 90% dos anticorpos produzidos em resposta à vacina vieram de células B de memória. "Quase tudo é dominado pelas células de memória antigas", afirma Victora.

 

No entanto, quando os pesquisadores injetaram em camundongos previamente infectados uma hemaglutinina que era apenas 90% idêntica à da PR8, a proporção de anticorpos de células B de memória e células B virgens caiu para cerca de 50:50. A equipe de Victora repetiu o experimento com várias outras proteínas hemaglutininas menos semelhantes à cepa infectante inicial e descobriu que, à medida que a semelhança diminuía, a proporção de anticorpos de células B virgens aumentava.

 

O custo da predisposição genética

 

O estudo de Victora sugere que, quando as células B de memória reagem a uma proteína da gripe altamente familiar, menos células B virgens conseguem responder a essa proteína. "Uma das grandes discussões é se isso é um problema ou não", diz Victora.

 

Os epítopos aos quais os anticorpos predispostos se ligam parecem ser um fator importante. "Se essa resposta de anticorpos estiver direcionada a algo conservado e neutralizante, então talvez seja uma forma projetiva de predisposição genética", diz Koutsakos. Mas se as células B de memória e seus anticorpos tiverem como alvo partes do vírus, que não são importantes para a infecção, a predisposição genética pode deixar a pessoa menos protegida.

 

Em 2020, os grupos de Hensley e Cobey relataram que a exposição prévia a uma cepa H3N2 que circulou nas décadas de 1960 e 1970, pode ter tornado adultos de meia-idade mais suscetíveis a uma cepa H3N2 que surgiu em 2014. O estudo descobriu que pessoas de todas as faixas etárias possuíam anticorpos capazes de se ligar ao novo H3N2, mas que os anticorpos produzidos por adultos de meia-idade, geralmente apresentavam baixa capacidade de neutralizar o vírus em experimentos de laboratório.

 

Mesmo quando não previnem a infecção, os anticorpos ainda podem ajudar a combatê-la. Linfócitos B de memória reativados, que inicialmente produzem anticorpos com baixa capacidade de ligação, podem melhorar a cada exposição à gripe, adquirindo mutações e passando por um processo de seleção que resulta em anticorpos altamente específicos e com forte capacidade de ligação, afirma Hensley.

 

Um arsenal de linfócitos B de memória que seja muito específico em uma pequena característica de uma proteína viral, no entanto, pode se tornar uma desvantagem, especialmente se essa característica sofrer uma mutação repentina. Isso parece ter ocorrido na temporada de gripe de 2013-2014, quando o H1N1 predominou. “Naquela temporada, houve uma mudança para infecções mais frequentes e precoces em adultos de meia-idade”, diz Cobey. Algumas pessoas nascidas nas décadas de 1960 e 1970, que tinham uma resposta imune condicionada contra uma área específica do vírus H1N1, eram mais suscetíveis à infecção por uma nova cepa de H1N1, que havia adquirido uma mutação nessa região. Há evidências de que a mesma coorte de nascimento nos Estados Unidos e no Canadá apresentou uma queda na eficácia da vacina durante a temporada de gripe de 2015-2016, possivelmente porque sua resposta imune condicionada dificultou a geração de imunidade à cepa vacinal daquele ano.

 

Estudos longitudinais como o DIVINCI podem esclarecer como a resposta imune condicionada afeta a eficácia da vacina contra a gripe, e como as doses anuais moldam a imunidade contra a gripe. O objetivo é “descrever como essas respostas imunes se formam e, em seguida, quais são seus potenciais em infecções subsequentes ou em contextos de vacinação”, afirma Paul Thomas, imunologista do Fred Hutchinson Cancer Center em Seattle, Washington, e um dos principais investigadores do estudo.

 

No entanto, os pesquisadores do estudo DIVINCI não têm certeza de por quanto tempo mais poderão coletar esses dados. Em maio, o NIH anunciou que não concederá mais financiamento para projetos que incluam subcontratos estrangeiros, e o centro do DIVINCI na Nova Zelândia perdeu seu financiamento do NIH. O Instituto Neozelandês de Saúde Pública e Ciências Forenses financiará o centro até a primavera de 2026.

 

Thomas e Gordon têm buscado maneiras de suprir as lacunas de financiamento para que possam acompanhar continuamente as crianças para as quais possuem históricos de gripe tão bem documentados; somente depois que as crianças são infectadas ou vacinadas na idade adulta é que os pesquisadores podem determinar com precisão o impacto da imunidade adquirida na primeira infância.

 

As crianças da primeira coorte de nascimento na Nicarágua estão completando 14 anos, e Gordon diz que espera acompanhá-las por mais cinco anos. "Uma meta importante está à vista", afirma. Mas a incerteza sobre se conseguirão alcançá-la tem sido "desanimadora, para dizer o mínimo".

 

As regras da memória

 

Dois dos locais de estudo do DIVINCI incluem grupos de crianças cujo primeiro contato real com a gripe ocorreu muito mais tarde do que o normal, devido aos confinamentos iniciados em 2020, como resultado da pandemia de COVID-19. "Temos crianças cujas cinco primeiras exposições parecem ter sido causadas pela vacinação, e temos crianças cujas cinco primeiras exposições parecem ter sido causadas pela infecção", diz Thomas.

 

As vacinas contra a gripe atuais contêm as cepas H1N1 e H3N2 da influenza A, bem como uma linhagem da influenza B. Gordon afirma que os dados do DIVINCI devem ajudar a esclarecer se a vacinação antes da infecção permite que o sistema imunológico das crianças internalize todas as cepas da vacina ou se interfere nesse processo.

 

Responder a essas perguntas será crucial para os pesquisadores, que esperam aproveitar o pecado e vacinar as pessoas precocemente. "Se pudermos desenvolver vacinas multivalentes que contenham muitos antígenos diferentes da gripe, podemos substituir o pecado antigênico original pela bênção da imunidade induzida", diz Hensley.

 

Hensley e seus colegas desenvolveram uma vacina de RNA mensageiro, que induz imunidade em camundongos e furões contra todas as 18 hemaglutininas conhecidas do vírus influenza A e as duas hemaglutininas do vírus influenza B, protegendo os animais contra infecções por H1N1. Hensley está planejando um ensaio clínico de fase I, para avaliar a segurança da vacina, que testará uma versão que expressa apenas cinco hemaglutininas em adultos.

 

Enquanto isso, o imunologista Tony Moody e sua equipe na Escola de Medicina da Universidade Duke, em Durham, Carolina do Norte, estão testando a vacina com 20 hemaglutininas em primatas não humanos. Estudos ainda não publicados sugerem, que a vacina pode produzir altos níveis de diversos anticorpos em animais que já foram imunizados por infecções anteriores por gripe. "Todas as respostas a tudo simplesmente surgiram", afirma Moody.

 

Hensley afirma que as vacinas de mRNA podem ser capazes de superar o pecado antigênico original porque geram respostas imunes mais prolongadas do que outras vacinas, expondo as células B virgens aos antígenos virais por um período tão longo que elas produzirão anticorpos independentemente do que as células B de memória estejam fazendo. "Veremos se isso também se confirma em humanos", diz ele.

 

A equipe de Moody continua estudando o que acontece quando a primeira exposição de um animal à gripe ocorre na forma das 20 hemaglutininas, e se há alguma perda ao promover uma resposta de anticorpos tão ampla. "É melhor ter uma impressão inicial ampla ou uma impressão inicial forte?", questiona ele. "Na verdade, o que queremos saber são as regras da memória imunológica. Porque são essas as regras que seguimos."

 


Novo antibiótico para gonorreia pode ajudar a combater infecções resistentes a medicamentos

 

Artigo publicado na Science em 11/12/2025, onde pesquisadores americanos afirmam que esperam que dois tratamentos para a doença sexualmente transmissível estejam disponíveis em breve.

 

Quando se trata de doenças que evoluem para enganar os antibióticos, a gonorreia tem sido uma das maiores preocupações. Neisseria gonorrhoeae, a bactéria que causa a doença sexualmente transmissível, desenvolveu resistência a todas as classes de antibióticos que têm sido usados para tratá-la. O mundo está confiando em apenas uma droga agora, a ceftriaxona, e a resistência a isso está aumentando. A Organização Mundial da Saúde há muito tempo adverte que, sem novos medicamentos, a gonorreia pode se tornar muito mais difícil de curar.

 

Agora, depois de anos de candidatos a drogas falhando em testes, os médicos podem em breve ter duas novas opções. Um antibiótico chamado gepotidacina teve sucesso em um grande estudo apresentado no início deste ano. E hoje os pesquisadores relatam no The Lancet que outra droga, chamada zoliflodacina, se mostrou segura e eficaz em outro grande estudo. Nos Estados Unidos a Food and Drug Administration (FDA) aprovou a gepotidacina para tratar a gonorreia hoje, e espera-se que aprove a zoliflodacina nos próximos dias também.

 

Os novos dados sobre a zoliflodacina “são muito importantes”, diz Aniruddha Hazra, médica de doenças infecciosas da Universidade de Chicago. “Sempre que somos capazes de trazer um novo antimicrobiano para o mercado de gonorreia, é uma grande vitória.”

 

A gonorreia infecta mais de 80 milhões de pessoas todos os anos. Muitas pessoas não têm sintomas, mas outras podem sofrer dor nos órgãos genitais, reto e garganta, bem como sangramento e corrimento. Não tratada, a infecção pode levar à infertilidade, infecções sistêmicas e sepse. Em recém-nascidos, infecções oculares podem levar à cegueira.

 

A zoliflodacina, originalmente desenvolvida por pesquisadores da AstraZeneca, interfere com uma enzima chamada DNA girasse, que a bactéria usa para desenrolar seu DNA, quando replica seu genoma. Outros antibióticos também têm como alvo a girase de DNA, mas a zoliflodacina pode ignorar a resistência anterior, porque se liga a uma subunidade diferente da enzima.

 

Durante esse estudo, os médicos trataram 930 pessoas com suspeita de infecções por gonorreia em clínicas na Tailândia, África do Sul, Estados Unidos, Bélgica e Holanda. Cada um recebeu o novo medicamento ou o tratamento atual de primeira linha, uma combinação de ceftriaxona e azitromicina. Depois de excluir pacientes cujos testes para gonorreia ficaram negativos, 460 de 506 pacientes que receberam zoliflodacina foram curados, contra 229 de 238 que receberam ceftriaxona e azitromicina, relatam os pesquisadores. Essas taxas de cura foram próximas o suficiente, para concluir que a zoliflodacina não é inferior ao atual regime de drogas, que foi o objetivo do estudo.

 

Um aspecto importante do estudo é que a maioria dos pacientes veio de países de baixa e média renda, onde a maioria dos casos, e a maior carga de complicações, ocorrem, diz Nicola Low, epidemiologista que estuda infecções sexualmente transmissíveis na Universidade de Berna.

 

Ao contrário da geopotidacina, a zoliflodacina só será usada para tratar a gonorreia, diz Seamus O’Brien, do GARDP, um dos autores do estudo. Essa é uma vantagem, diz ele, “porque Neisseria gonorrhoeae desenvolve resistência rapidamente, e há um risco aumentado se você estiver usando um medicamento para outras infecções”.

 

A disponibilidade de dois novos medicamentos levará a um debate importante, e provável controverso, sobre a melhor forma de usá-los, diz Low. “Haverá um corpo de opinião muito forte dizendo que devemos salvar as drogas até que tenhamos muitas falhas no tratamento e, em seguida, usá-las”, diz ela. “É a coisa do clínico conservador a fazer, para se agarrar a uma droga até que você realmente precise.”

 

Mas algumas evidências sugerem, que essa estratégia não é a melhor maneira de atrasar a resistência futura. Um estudo de modelagem recente descobriu, que a resistência a um novo medicamento gonorreal surgiria mais lentamente, se esse medicamento não fosse mantido em reserva, mas usado em combinação com o medicamento atual, ou se os pacientes fossem randomizados para obter o medicamento atual ou o novo.

Ainda assim, esses estudos fazem muitas suposições, diz Yonatan Grad, especialista em doenças infecciosas do Harvard T.H. Chan School of Public Health, que foi co-autor de ambos os artigos. Por exemplo, a modelagem assume que as drogas antigas e novas têm essencialmente as mesmas características. Na realidade, eles diferem: por exemplo, a ceftriaxona deve ser administrada por injeção, enquanto os novos compostos podem ser administrados por via oral. Os estudos também modelaram uma população norte-americana de homens que fazem sexo com homens, mas os resultados podem não generalizar para outras populações em países com altas taxas de resistência à ceftriaxona, que também são os mais propensos a lançar em breve os novos medicamentos. Tanto Low quanto Grad estão planejando trabalhar com o GARDP em estudos de modelagem adicionais sobre a melhor forma de implantar a zoliflodacina. Mas, no final, os pesquisadores não controlarão como os médicos escolheram usar os medicamentos, observa ele.

 

Mesmo com dois novos medicamentos, o problema da gonorreia resistente a antibióticos está longe de ser resolvido, dizem os pesquisadores. Nenhum dos medicamentos foi comprovado para combater infecções de garganta, que são particularmente difíceis de tratar, diz Hazra. E N. gonorrhoeae é susceptível de continuar evoluindo em torno de antibióticos. Uma “abordagem multifacetada” deve incluir vacinas e novas estratégias de prevenção, juntamente com a vigilância contínua, diz Hazra, porque “a resistência antimicrobiana na gonorreia não é uma questão de se, mas quando”.

 


Os sintomas desapareceram: Terapias CAR-T levam doenças autoimunes à remissão

 

Artigo publicado na Nature em 26/11/2025, onde pesquisadores da Alemanha afirmam que as células T geneticamente modificadas, utilizadas no tratamento de colite ulcerativa, artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistêmico, mostraram resultados promissores.

 

Células imunológicas geneticamente modificadas, estão sendo usadas com sucesso, para tratar pessoas com uma série de doenças autoimunes debilitantes, como colite ulcerativa, artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistêmico. Pesquisadores afirmam que resultados positivos de cerca de uma dúzia de estudos realizados nos últimos três anos, sugerem que a terapia com células CAR-T poderá, eventualmente, ser usada para tratar qualquer doença, em que o sistema imunológico ataque o próprio corpo.

 

A terapia com células CAR-T, explora as células T do sistema imunológico, que combatem infecções: essas células são coletadas de uma pessoa, e modificadas para produzir proteínas chamadas receptores de antígenos quiméricos (CAR-T). Elas são então reintroduzidas no corpo, para atacar antígenos expressos pelas células B, outro tipo de célula imunológica. Em doenças autoimunes, essas células B produzem anticorpos, que atacam os próprios tecidos saudáveis ​​do corpo.

 

O uso dessa terapia para doenças autoimunes, teve um crescimento exponencial desde 2021, quando uma jovem de 20 anos na Alemanha, com lúpus grave, tornou-se a primeira pessoa com uma doença autoimune a ser tratada com células CAR-T. O médico e pesquisador David Simon, que participou desse tratamento, afirma que as terapias com células CAR-T entraram nas fases I e II de ensaios clínicos para doenças autoimunes, incluindo esclerose sistêmica, miosite e artrite reumatoide. Ensaios de fase III também estão em andamento para lúpus e miastenia gravis, uma doença que causa fraqueza nos músculos, usados ​​para respirar, engolir e enxergar.

 

Simon, que se dedica ao estudo da artrite reumatoide no Hospital Universitário Charité, em Berlim, diz que os pacientes em ensaios clínicos com terapia de células CAR-T para artrite reumatoide e lúpus, parecem estar "curados". "Eles perdem os autoanticorpos que desencadeiam a doença, e não apresentam mais sintomas", acrescenta. "Isso é algo totalmente novo que não tínhamos observado antes."

 

A terapia com células CAR-T tornou-se um tratamento de rotina para diversos tipos de câncer, desde que foi aprovada pela primeira vez para tratar cânceres do sangue em 2017.

 

Uma nova fronteira

 

A colite ulcerativa, uma doença que afeta o cólon e causa dor abdominal, úlceras e diarreia com sangue, é uma das doenças mais recentes, em que a terapia com células CAR-T, tem demonstrado resultados promissores.

 

Em setembro, o gastroenterologista Markus Neurath e seus colegas do Hospital Universitário de Erlangen, na Alemanha, relataram o uso de células CAR-T para tratar uma mulher de 21 anos com colite ulcerativa. Após o tratamento, ela apresentou sinais de remissão que persistiram por 14 semanas, não precisou mais de medicação e pôde retornar ao trabalho. “O resultado foi surpreendente”, acrescenta Neurath. Sua equipe planeja testar o tratamento em mais algumas pessoas, antes de prosseguir para um ensaio clínico controlado, envolvendo um grande número de participantes.

 

No início deste ano, Bing Du, imunologista da Universidade Normal do Leste da China, em Xangai, e sua equipe, publicaram os resultados de um estudo piloto com células CAR-T, utilizando células imunológicas de um doador, para tratar o lúpus resistente a medicamentos. Células derivadas de doadores poderiam funcionar como uma versão genérica do tratamento com células CAR-T, que poderia ser produzida em massa, reduzindo o tempo de fabricação e os custos. No ano passado, Du também participou de um estudo pioneiro mundial com células imunológicas biomodificadas de um doador, para o tratamento de duas doenças autoimunes raras e graves.

 

Como parte do estudo mais recente, quatro mulheres com uma forma de lúpus, que afeta múltiplos órgãos, receberam quimioterapia para reduzir os níveis de glóbulos brancos, seguida de uma infusão de células CAR-T derivadas de doadores. Após três meses, as mulheres não apresentavam mais sintomas como artrite, inchaço dos vasos sanguíneos e alopecia, e uma delas entrou em remissão e não precisou mais de medicação. As outras três mulheres receberam baixas doses de esteroides como terapia de manutenção.

 

Os resultados do ensaio foram “muito melhores do que poderíamos imaginar”, diz Du, e podem ser atribuídos às células CAR-T, que desencadeiam a depleção total das células B disfuncionais, que atacam os tecidos do corpo. “O sistema imunológico teve que reconfigurar não apenas as células B, mas também o restante do sistema imunológico”, acrescenta ele, permitindo potencialmente, que novas células B saudáveis ​​substituam as células disfuncionais.

 

Outros grupos também estão tentando desenvolver métodos, nos quais as pessoas geram células CAR-T dentro de seus próprios corpos, evitando o processo de fabricação demorado e caro para criar as células T modificadas, e os riscos de infecção e toxicidade associados ao tratamento imunossupressor, ao qual as pessoas são submetidas antes de receber a terapia com células CAR-T. “Esses são todos desenvolvimentos iniciais, mas é o começo de uma nova era na medicina clínica”, diz Neurath.

 

Possível cura?

 

Neurath afirma que as células CAR-T se tornarão uma terapia mais comum nos próximos anos, inclusive para outras doenças autoimunes crônicas. "No lúpus eritematoso sistêmico, estou bastante convencido de que essa terapia se tornará rotineira, pois muitos estudos prospectivos estão em andamento e diversos grupos independentes relataram resultados positivos espetaculares", acrescenta.

 

Embora existam vários exemplos de pessoas que entraram em remissão após o tratamento com células CAR-T, Simon diz que é difícil saber se a terapia com células CAR-T será uma cura permanente. "No lúpus eritematoso sistêmico, o que vimos até agora é que pode ser um tratamento que leva à cura, pelo menos em muitos pacientes", acrescenta. Mas será que ainda é cedo demais para afirmar isso em relação a doenças para as quais foram feitas menos pesquisas, como a artrite reumatoide?

 


Morcegos-vampiros podem ter contraído gripe aviária H5N1 no Peru, aumentando as preocupações sobre uma maior disseminação.

 

Artigo publicado na Science em 25/11/2025, onde pesquisadores de diferentes países afirmam que os morcegos podem formar uma ponte entre mamíferos marinhos e terrestres.

 

Em outubro de 2022, aves migratórias levaram o vírus da gripe aviária H5N1 para a América do Sul, onde ele rapidamente causou surtos devastadores ao longo da costa do Pacífico, dizimando não apenas aves selvagens, mas também populações de mamíferos marinhos. Carcaças de milhares de leões-marinhos sul-americanos foram encontradas nas praias do Peru e do Chile; elefantes-marinhos e golfinhos também foram afetados.

 

Agora, um estudo mostra que o surto sem precedentes pode ter afetado outro mamífero: o morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus), que se alimenta do sangue de animais marinhos ao longo da costa peruana. O estudo, sugere que o H5N1, que está no topo da lista de potenciais agentes pandêmicos, possui uma nova rota de transmissão intrigante e potencialmente preocupante, que poderia aumentar o risco de uma pandemia.

 

Os morcegos vivem em grupos densos, onde os vírus podem passar facilmente de um animal para o outro, o que significa que eles poderiam se tornar um novo reservatório permanente para o H5N1 com mais facilidade do que outras espécies de mamíferos. E como alguns morcegos-vampiros do Peru se alimentam de gado, eles podem formar uma ponte que transporta o vírus de mamíferos marinhos para terrestres, permitindo que ele evolua ainda mais e se adapte a mamíferos, incluindo humanos, dizem os pesquisadores. "É preocupante", afirma Thijs Kuiken, patologista veterinário do Centro Médico Erasmus, que investiga a disseminação do H5N1 e de outros vírus da gripe, mas que não participou do estudo.

 

Ainda assim, a descoberta não é motivo para soar o alarme de pandemia, acrescenta Kuiken, porque o estudo sugere que o H5N1 não se espalhou entre morcegos, um pré-requisito para que eles se tornem um reservatório viral. O virologista da gripe Richard Webby, do St. Jude Children’s Research Hospital, concorda. “Sempre que encontramos o H5N1 em uma espécie diferente ou por uma via de infecção diferente, isso aumenta o risco de pandemia. Mas, por si só, não é algo com que devamos nos preocupar muito”, diz Webby. Ainda assim, “é um achado muito interessante”, acrescenta.

 

Os morcegos, que representam cerca de um quinto de todas as espécies de mamíferos, são conhecidos por abrigarem uma infinidade de vírus que também podem infectar pessoas, incluindo o vírus da raiva e muitos coronavírus. A primeira evidência de que eles também podem ser infectados com o H5N1 veio de Dhaka, capital de Bangladesh, onde, há alguns anos, pesquisadores descobriram que raposas-voadoras-indianas, uma espécie que se alimenta de frutas e néctar, morreram em decorrência do vírus. Esses morcegos foram infectados por compartilharem uma árvore com um grupo de corvos domésticos afetados pelo H5N1, afirma Ariful Islam, que estuda a epidemiologia e a ecologia evolutiva de doenças infecciosas emergentes na Universidade Charles Sturt.

 

I-Ting Tu, veterinária especializada em vida selvagem na Universidade de Glasgow, questionou se o H5N1 também poderia infectar morcegos-vampiros no Peru, que seu orientador, Daniel Streicker, estuda há muitos anos. I-Ting Tu não estava presente quando o surto de H5N1 no Peru atingiu seu pico no início de 2023; ela chegou às colônias de morcegos estudadas pelo grupo, cerca de oito meses depois. Nessa época, ela não conseguiu encontrar nenhum vestígio do vírus em amostras de secreção da garganta ou do reto dos morcegos.

 

Mas a equipe encontrou anticorpos contra o H5 em amostras de sangue de alguns dos animais, sugerindo que eles haviam sido infectados no passado ou, pelo menos, expostos ao vírus. Os anticorpos não estavam presentes em amostras coletadas antes da grande onda de H5N1, indicando que a causa não era uma cepa diferente de H5, e os pesquisadores também não os encontraram em colônias que viviam mais para o interior. Isso sugere fortemente que os morcegos foram expostos ao H5N1 por animais marinhos, diz Tu.

 

Para descobrir de quais animais os morcegos se alimentavam, os pesquisadores analisaram o DNA encontrado no reto dos morcegos e em amostras de sangue. Esses dados mostraram que os morcegos costeiros tinham uma dieta inesperadamente diversificada, que incluía sangue não apenas de leões-marinhos, mas também de muitas espécies de aves, como pelicanos-peruanos, cormorões-neotropicais, pinguins-listrados, atobás e urubus. Os morcegos em locais do interior se alimentavam de animais de criação, incluindo cavalos, porcos, ovelhas, cabras e gado. Alguns morcegos em locais com "dieta mista", não muito longe da costa, se alimentavam tanto de animais marinhos quanto de animais de criação, ressaltando o potencial desses animais para disseminar vírus do mar para a terra ou vice-versa, afirma a equipe. Os pesquisadores não encontraram evidências de que isso tenha acontecido, e não está claro se o vírus da gripe pode ser transmitido por meio da mordida de um morcego.

 

Kuiken conta que recentemente mostrou a alunos de graduação um vídeo de morcegos-vampiros se alimentando de elefantes-marinhos, para ilustrar como os vírus podem se mover entre espécies animais, mas diz que não havia lhe ocorrido que o H5N1 pudesse se espalhar dessa forma.

 

Mas aqui está a parte tranquilizadora: o vírus não se espalhou bem entre os morcegos. Não mais do que 8% dos indivíduos em qualquer colônia tinham anticorpos, relata a equipe. Se tivesse havido uma transmissão eficiente de H5N1 de morcego para morcego, esse número teria sido maior.

 

Os pesquisadores não têm certeza do porquê o vírus se espalhou tão pouco. Estudos de laboratório em Glasgow mostraram que os morcegos-vampiros têm receptores nos pulmões aos quais o H5N1 pode se ligar, e células dos rins, fígado e pulmões podem ser infectadas pelo vírus. "Os vírus que entraram até agora não parecem estar se disseminando, mas não conseguimos identificar nenhuma barreira fisiológica real e rígida", diz Streicker. Isso significa, pelo menos por enquanto, que é improvável que os morcegos se tornem um reservatório, afirma Kuiken.

 

Os morcegos-raposa mortos em Bangladesh também não são motivo de preocupação imediata, diz Webby. Esses morcegos poderiam, teoricamente, transmitir o H5N1 para humanos, mas esse risco é insignificante comparado ao perigo representado pelos surtos de H5N1 em aves domésticas. Bangladesh registrou quatro casos humanos de H5N1 este ano, presumivelmente todos decorrentes do contato com aves. "Sabemos que os mercados de aves vivas em Bangladesh estão fortemente contaminados" com H5N1, diz Webby. "Portanto, há muitas oportunidades de exposição humana."

 


Medicamentos à base de anticorpos mostram-se promissores no tratamento da gripe aviária e do HIV.

 

Artigo publicado na Nature em 05/11/2025, onde pesquisadores de diferentes países afirmam que estão desenvolvendo anticorpos para rastrear a evolução desses vírus e tratar melhor essas infecções.

 

Pesquisadores estão desenvolvendo cada vez mais terapias com anticorpos, para tratar as doenças infecciosas. Terapias estão sendo projetadas para reduzir a gravidade de infecções agudas como a gripe aviária, e curar doenças crônicas como o HIV. Anticorpos sintéticos também podem tornar as vacinas mais eficazes para doenças como a COVID-19.

 

Os anticorpos fazem parte da defesa do sistema imunológico contra infecções. Cientistas produzem versões sintéticas, combinando células B de camundongos e linhagens celulares humanas. A maioria dos medicamentos com anticorpos aprovados são para cânceres e doenças autoimunes.

 

Anticorpos monoclonais, também são amplamente utilizados em terapias antivirais, para tratar infecções graves causadas por Ebola, vírus sincicial respiratório (VSR) e o vírus SARS-CoV-2 da COVID-19, afirma Runhong Zhou, que estuda respostas imunológicas na Universidade de Hong Kong. Mas os esforços anteriores para desenvolver antivirais para a gripe aviária não foram tão bem-sucedidos, porque o vírus sofre muitas mutações que tornam o tratamento menos eficaz, acrescenta ele. Os medicamentos com anticorpos para COVID-19 também se tornaram menos eficazes ao longo do tempo, pelo mesmo motivo.

 

Tratamento da gripe aviária

 

Para a gripe aviária H5N1, Zhou e seus colegas, desenvolveram um anticorpo com dois alvos: a região do caule das proteínas na superfície do vírus e os receptores nas células humanas. Em experimentos com células, eles descobriram que o anticorpo neutralizava múltiplas cepas vivas do vírus da gripe aviária, e era superior a um anticorpo monoclonal modelo, que tem como alvo apenas um antígeno específico, na prevenção da ligação ou entrada de partículas virais nas células. Seus resultados sugerem que, atingir o caule do vírus e os receptores do hospedeiro simultaneamente, “é uma boa estratégia para aumentar a eficácia do anticorpo”, afirma Zhou. Mas ainda não está claro quanto tempo a proteção durará, ou se o tratamento com anticorpos pode induzir mutações no vírus, que lhe permitam escapar do sistema imunológico.

 

Hsiang Hong, pesquisador da Universidade Columbia, em Nova York, também faz parte de uma equipe, que utiliza anticorpos contra o H5N1. Ele afirma que ele e seus colegas, estão desenvolvendo um painel de anticorpos monoclonais, que têm como alvo múltiplas partes do vírus H5N1, para rastrear como ele evolui ao longo do tempo, e identificar possíveis tratamentos que possam atingir diversas variantes do vírus.

 

Uma mão amiga

 

Os anticorpos também podem aumentar a eficácia de outros tratamentos como vacinas, que precisam ser atualizadas, porque a maioria dos vírus sofre mutações frequentes à medida que evoluem.

 

Zhiwei Chen, pesquisador de imunologia da Universidade de Hong Kong, afirma que anticorpos capazes de se ligar a partes altamente conservadas do SARS-CoV-2, podem ajudar as vacinas a manterem sua eficácia, mesmo com as mutações do vírus. Chen e sua equipe, identificaram diversas áreas da superfície da partícula do SARS-CoV-2, que não se alteram quando o vírus sofre mutações. Eles também descobriram, que vários anticorpos que têm como alvo essas áreas altamente conservadas, foram eficazes na neutralização de diferentes coronavírus, incluindo o SARS-CoV-1, causador da síndrome respiratória aguda grave, variantes do SARS-CoV-2, e alguns coronavírus encontrados em pangolins e morcegos.

 

Tratamento do HIV

 

Sharon Lewin, pesquisadora de doenças infecciosas do Instituto Peter Doherty de Infecção e Imunidade em Melbourne, Austrália, e sua equipe, esperam usar anticorpos para aprimorar o tratamento do HIV. Pessoas com HIV recebem antirretrovirais, o tratamento padrão atual, que reduzem a carga viral no organismo. No entanto, elas ainda possuem reservatórios de células T dormentes infectadas com o vírus, que podem ser reativadas caso a medicação seja interrompida.


Reativar as células T para que sejam eliminadas pelo sistema imunológico, é uma estratégia para reduzir esse reservatório. No início deste ano, pesquisadores relataram na revista Nature Communications, que conseguiram reativar células T dormentes administrando uma pequena molécula contendo mRNA às células, embora a molécula não tenha atingido as células T de forma tão eficaz, quando testada em animais. A equipe descobriu posteriormente que a ligação de um anticorpo à pequena molécula, pode ajudar a direcioná-la às células T, impedir sua degradação no fígado e protegê-la das células fagocitárias, responsáveis ​​pela destruição de partículas estranhas.

 

Estudos sobre a infecção pelo HIV também demonstraram, que o tratamento com anticorpos por um curto período, pode alterar o funcionamento do sistema imunológico, afirma Lewin. “Há evidências de que a capacidade de controlar o vírus, melhora após o recebimento do anticorpo”, acrescenta ela, mesmo depois que a pessoa para de receber o anticorpo. Em um preprint publicado em março, que foi posteriormente aceito por uma revista científica revisada por pares, Lewin e outros pesquisadores, modelaram a resposta imunológica quando anticorpos de amplo espectro são administrados a pessoas com HIV, durante ou logo após a terapia antirretroviral. Eles relataram que a terapia com anticorpos pode significar que as pessoas não precisarão mais de antirretrovirais, que geralmente são um tratamento vitalício.

 

Ainda há muito trabalho a ser feito, antes que as terapias com anticorpos sejam amplamente utilizadas para tratar infecções, diz Lewin. Atualmente, os anticorpos precisam ser infundidos diretamente em uma veia; ainda não existem versões orais, que geralmente são mais fáceis de tomar e mais baratas de produzir. E embora anticorpos que neutralizam muitas cepas de um vírus estejam sendo desenvolvidos, Lewin afirma que os tratamentos geralmente exigem múltiplos anticorpos para atingir todas as cepas, o que os torna caros.

 


Novo tratamento ajuda a criar células imunes que podem combater a maioria das doenças autoimunes

 

Artigo publicado na Science em 22/10/2025, onde pesquisadores de diferentes países ressaltam o estudo do Prêmio Nobel, que criou células T reguladoras, que duram mais tempo no corpo, aumentando as esperanças clínicas no tratamento de diversas doenças autoimunes. 

 

O Comitê Nobel de Fisiologia ou Medicina tinha tratamentos em mente ao escolher seus premiados deste ano. O prêmio, dividido entre três pesquisadores, reconheceu a descoberta das células T reguladoras, ou Tregs, que interrompem ataques imunológicos acidentais contra os próprios órgãos do corpo. As Tregs poderiam ser terapias poderosas para pessoas com doenças autoimunes, se os cientistas conseguissem produzir um grande número delas, que persistissem no corpo por tempo suficiente para funcionar.

 

Agora, um dos recém-agraciados com o Nobel, Shimon Sakaguchi, enfrenta esses desafios com um novo método para produzir Tregs abundantes e duradouros. No primeiro de dois artigos publicados na Science Translational Medicine, o imunologista da Universidade de Osaka e seus colegas, descrevem como suas células geradas em laboratório, suprimem eficazmente as respostas imunológicas em camundongos. No segundo, ele e outros pesquisadores criaram Tregs para tratar uma doença de pele autoimune específica em camundongos e, preparando o cenário para um ensaio clínico, usaram um método semelhante para gerar Tregs humanas, a partir do sangue de pessoas com a condição dolorosa.

 

“Muitos de nós temos pensado na melhor forma de liberar a potência dessas células T reguladoras”, diz Qizhi Tang, imunologista da Universidade da Califórnia em São Francisco, que não participou do trabalho. “Acredito que esses serão estudos muito importantes para ajudar a impulsionar o campo.”

 

As células T convencionais possuem receptores que reconhecem proteínas específicas, chamadas antígenos, normalmente presentes em micróbios ou outros invasores, e desencadeiam um ataque imunológico. Em contraste, as células Tregs são pacificadoras. Elas reconhecem antígenos, incluindo as próprias proteínas do corpo, e impedem que as células imunes ataquem os tecidos com esses marcadores.

 

Cientistas têm tentado várias maneiras de aproveitar o poder das células Tregs naturais, para atenuar reações imunológicas excessivas, e prevenir o fogo amigo das doenças autoimunes. Uma abordagem atualmente em testes clínicos, coleta as células do sangue humano, multiplica-as em uma placa e as devolve aos pacientes. Mais recentemente, cientistas projetaram receptores artificiais, conhecidos como CARs, nessas células para atingir antígenos específicos de doenças. Mas as células Tregs naturais são escassas no sangue, e não se desenvolvem bem em laboratório, observa Tang. "É um verdadeiro gargalo para a área."

 

Sakaguchi seguiu um caminho diferente: gerar células Tregs a partir de células T convencionais, incluindo aquelas que causam doenças autoimunes. Essas células são mais comuns que as Tregs no sangue, e são mais fáceis de cultivar em uma placa.

 

No início, seu grupo e outros utilizaram medicamentos e moléculas sinalizadoras naturais, para fazer com que células T normais, ativassem um gene-chave ligado às células Treg, chamado Foxp3. As células Treg induzidas (iTregs) resultantes, reduzem a atividade autoimune, mas apenas brevemente. Algumas "perdem a expressão do Foxp3 em poucos dias", afirma Masayuki Amagai, coautor do segundo artigo publicado, e dermatologista da Universidade Keio.

 

Agora, Sakaguchi e colegas encontraram uma maneira de ajudar as células reprogramadas a perdurarem. Sua nova e complexa receita de moléculas sinalizadoras e outros compostos, descrita em um dos dois novos artigos, não apenas aumenta a expressão do Foxp3, mas também induz alterações epigenéticas, modificações na estrutura do DNA e nas moléculas circundantes, destinadas a manter as características das células Treg por mais tempo.

 

Para testar sua marca de iTregs, os pesquisadores as injetaram em camundongos geneticamente modificados, que eram suscetíveis à inflamação intestinal. O resultado foi uma proteção duradoura contra a inflamação. Mesmo 6 semanas depois, quando os iTregs gerados com protocolos anteriores já teriam parado de funcionar há muito tempo, a maioria das células da equipe de Sakaguchi ainda expressava Foxp3. Injeções semelhantes, proporcionaram semanas de proteção para camundongos preparados para desenvolver a doença do enxerto contra o hospedeiro, uma condição autoimune na qual as células-tronco transplantadas atacam os próprios tecidos do hospedeiro.

"Parece que o protocolo é incrivelmente potente na criação de Tregs estáveis ​​e duradouros", afirma Adrian Liston, imunologista da Universidade de Cambridge.

 

No segundo artigo, Sakaguchi, Amagai e colegas, testaram se seus iTregs poderiam atingir uma imunossupressão mais focada. O pênfigo vulgar (PV) é uma doença autoimune rara e potencialmente fatal, que ocorre quando o corpo ataca uma proteína chamada Dsg3 na camada epidérmica da pele, causando bolhas graves. A equipe coletou tecido de camundongos modificados para produzir células T direcionadas à Dsg3, converteu essas células em iTregs, e as injetou em camundongos com um distúrbio semelhante à PV, suprimindo com sucesso a irritação cutânea. Injeções de iTregs feitas a partir de células de camundongos normais, e, portanto, não específicas para Dsg3, foram menos eficazes.

 

Os pesquisadores também criaram iTregs, a partir de células do sangue de pacientes com PV. Amagai afirma que agora estão trabalhando para adaptar sua abordagem para ensaios clínicos, que testem a segurança das células em pessoas.

 

Os pesquisadores sugerem que sua estratégia pode ser eficaz, mesmo que o antígeno causador da doença seja desconhecido. Pessoas com doenças autoimunes já possuem um alto número de células T que reconhecem o antígeno associado à doença, e, portanto, a maioria dos iTregs gerados a partir delas, também teria essa especificidade antigênica, argumentam os pesquisadores. Ainda assim, o imunologista Peter Savage, da Universidade de Chicago, acredita que os médicos ainda desejariam uma maneira de aumentar seletivamente os iTregs específicos da doença, em comparação com os demais.

 

A segurança a longo prazo das células em pessoas é incerta. Mesmo que os novos iTregs sejam mais estáveis ​​do que seus antecessores, eles podem eventualmente retornar ao seu estado patogênico original, diz James Riley, imunologista da Universidade da Pensilvânia, que trabalha com células CAR Tregs. "Isso poderia, na verdade, exacerbar a doença em vez de ajudá-la."

 

No entanto, Tang, que está desenvolvendo Tregs modificadas em uma empresa que cofundou com Fred Ramsdell, outro ganhador do Prêmio Nobel deste ano, imagina combinar a nova abordagem com CAR e outras tecnologias, para aprimorar o controle do sistema imunológico. "Este é um campo super empolgante para se trabalhar agora."

 

Uma cepa considerada "menor" da Gripe Aviária, tem potencial para desencadear uma nova pandemia em humanos.

 

Artigo publicado na Nature em 28/10/2025, onde pesquisadores de diferentes países afirmam que novos estudos sugerem que a cepa H9N2 da Gripe Aviária, se adaptou bem às células humanas, embora ainda não haja casos de transmissão de pessoa para pessoa.

 

Um vírus da gripe aviária, frequentemente ignorado por causar principalmente doenças leves em aves, tem potencial para causar uma pandemia em humanos, afirma uma equipe, que rastreou como o vírus H9N2 se adaptou para infectar pessoas. Os pesquisadores dizem que é necessário um maior monitoramento do vírus.

 

Nos últimos anos, o foco do monitoramento tem sido o vírus da gripe aviária H5N1, que se espalhou pela maioria dos continentes, e pode causar doenças graves e morte em humanos. Desde 2020, o H5N1 matou cerca de 21 pessoas. Na América do Norte, o vírus também está se espalhando entre vacas leiteiras.

 

Menos atenção tem sido dada ao H9N2, afirma o Dr. Kelvin To, microbiologista clínico da Universidade de Hong Kong, apesar de o vírus ser a segunda cepa mais comum de gripe aviária que infecta humanos. O H9N2 causou 173 infecções em humanos desde 1998, principalmente na China, diz To, que apresentou a pesquisa de sua equipe no Simpósio Internacional da Aliança de Pesquisa em Pandemias, em Melbourne, Austrália, em 27 de outubro.

 

O H9N2 pode ser mais prevalente do que imaginamos, afirma Dra. Michelle Wille, que estuda a gripe aviária no Instituto Peter Doherty para Infecção e Imunidade, em Melbourne. As infecções provavelmente estão passando despercebidas, porque não resultam em infecções graves ou hospitalização em humanos, ou porque as pessoas são testadas com mais frequência para o H5N1, acrescenta ela.

 

Alterações genéticas

 

Os cientistas ainda não encontraram evidências de transmissão de pessoa para pessoa do H9N2, o que seria necessário para que ele levasse a uma pandemia. Mas To e sua equipe descobriram, que o H9N2 sofreu alterações genéticas que começaram por volta de 2015, e que tornaram o vírus mais infeccioso. Em experimentos com células, uma versão do vírus H9N2 coletada em 2024, infectou mais células humanas, do que uma amostra histórica coletada em 1999. A versão moderna também apresentou melhor ligação a vários receptores em células humanas. Isso significa que o vírus se adaptou para se espalhar entre as pessoas, relataram To e seus colegas, na revista Emerging Microbes & Infections, no início deste mês.

 

O vírus precisaria sofrer diversas outras alterações, antes de conseguir causar transmissão sustentada entre humanos, afirma Wille. Ele precisa se modificar para se ligar preferencialmente a receptores humanos, em vez de receptores encontrados em células de aves, e precisa adaptar sua capacidade de replicação em temperaturas e níveis de pH diferentes dos encontrados em humanos e aves.

 

É necessário aumentar a vigilância e a comunicação sobre os riscos da gripe aviária, diz Wille. Parte do problema reside no fato, de que os países não são obrigados a notificar infecções causadas por cepas consideradas de baixa patogenicidade, como a H9N2.

 

To afirma que uma maior vigilância viral entre mamíferos em contato próximo com aves selvagens ou domésticas ajudaria os cientistas a entenderem se o vírus se adaptou a mamíferos que não sejam humanos.

 

Ele está preocupado com o fato de que, quando os animais são infectados por múltiplos vírus, o material genético se mistura e recombina, quando os vírus se replicam dentro da célula, podendo criar novos vírus, capazes de infectar humanos. Os cientistas temem que essa recombinação, também possa ocorrer em pessoas. To afirma que outras pesquisas encontraram material genético do H9N2 entre os vírus que causaram surtos anteriores de gripe aviária em humanos.

  


Uma surpresa positiva das vacinas contra a COVID-19: um reforço no tratamento do câncer

 

Artigo publicado na Science em 20/10/2025, onde pesquisadores americanos afirmam que os pacientes que receberam injeções de mRNA antes de iniciar um tipo de imunoterapia contra o câncer, viveram muito mais.

 

As inovadoras vacinas de RNA mensageiro (mRNA) que impediram os estragos da COVID-19, também podem ajudar a combater tumores em pacientes com câncer, de acordo com uma nova análise de registros médicos e estudos em camundongos.

 

Pessoas com câncer que, por coincidência, receberam as injeções de mRNA antes de iniciar o tratamento com medicamentos projetados para liberar o sistema imunológico contra tumores, viveram significativamente mais tempo do que aquelas que não foram vacinadas, anunciou uma equipe de pesquisa ontem no Congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica, em Berlim. Experimentos de laboratório do grupo sugerem que as vacinas aceleram o sistema imunológico, tornando até mesmo tumores persistentes, mais suscetíveis ao tratamento.

 

As descobertas ressaltam o potencial ainda inexplorado da tecnologia de mRNA, em um momento em que o governo do presidente Donald Trump recuou no financiamento da área. "Acho esses dados extraordinários", diz Ryan Sullivan, oncologista e imunologista do Hospital Geral de Massachusetts, que não participou da nova pesquisa. Embora a análise dos dados de pacientes com câncer tenha sido retrospectiva, ele observa que a associação observada entre a vacinação contra a COVID-19 e a melhora da sobrevida "é muito forte".

 

“Estou cautelosamente otimista com esses resultados”, afirma Mark Slifka, imunologista da Universidade de Saúde e Ciência do Oregon. A pesquisa ainda precisa ser confirmada com um ensaio clínico prospectivo e randomizado, algo que Steven Lin, radio-oncologista do Centro de Câncer da Universidade do Texas e pesquisador principal do trabalho, afirma já estar sendo planejado.

 

As novas descobertas se baseiam em resultados do mesmo grupo, mostrando que, em modelos murinos, uma vacina de mRNA generalizada potencializou os efeitos de combate a tumores de medicamentos imunoterápicos, chamados inibidores de ponto de verificação. Esses resultados, publicados em julho na Nature Biomedical Engineering, “realmente lançaram as bases” para a ideia de que uma vacina de mRNA, mesmo uma não direcionada a nenhuma proteína tumoral específica, poderia reforçar a imunoterapia contra o câncer, afirma Adam Grippin, médico e pesquisador de imunoterapia do MD Anderson, que apresentou os novos dados do grupo em Berlim no domingo. “A próxima pergunta que queríamos fazer era: se isso for verdade, e quanto à vacina contra a COVID-19?”

 

Para descobrir, Grippin e seus colegas analisaram os registros de mais de 1.000 pacientes tratados para câncer de pele e pulmão avançado no MD Anderson entre 2019 e 2023. Pessoas que receberam a vacina de mRNA contra COVID-19 dentro de 100 dias após o início da imunoterapia com inibidores de ponto de controle, viveram significativamente mais, do que aquelas que receberam os mesmos medicamentos, mas não tomaram a vacina. Para pacientes com câncer de pulmão avançado, a taxa de sobrevida mediana quase dobrou, passando de 20,6 meses para 37,3 meses.

 

Grippin afirma que eles "utilizaram o máximo de abordagens estatísticas possível" para contabilizar potenciais fatores de confusão, mas a associação entre melhores taxas de sobrevivência e vacinas contra a COVID-19, persistiu. Pacientes que receberam vacinas sem mRNA para gripe e pneumonia, por exemplo, não apresentaram resultados melhores, do que a média dos pacientes em imunoterapia.

 

As vacinas, que consistem principalmente em mRNA que codifica a proteína spike na superfície do coronavírus pandêmico SARS-CoV-2, são projetadas para induzir uma resposta imune específica ao patógeno. Mas, com base em estudos de laboratório, Grippen e seus colegas acreditam que, em pacientes com câncer, a vacina de mRNA atua "como uma sirene". Ela desencadeia a liberação de proteínas de sinalização imunológica conhecidas como citocinas, incluindo o interferon tipo 1, a mesma proteína responsável por muitos dos fortes efeitos colaterais que as pessoas experimentam após a imunização. Os dados de laboratório sugerem que o interferon, por sua vez, ativa as células imunes dentro dos tumores e as faz se mover para os linfonodos, onde treinam outras células imunes para viajar de volta pela corrente sanguínea e atacar os tumores.

 

Os tumores normalmente respondem a esse ataque expressando uma proteína chamada PD-L1, projetada para suprimir o sistema imunológico. Mas os inibidores de checkpoint impedem que as células imunológicas se liguem a essas proteínas. Isso frustra as tentativas de evasão do tumor e ajuda a "liberar o poder do sistema imunológico para matar o câncer", diz Grippin.

 

O trabalho anterior com camundongos sugere que, qualquer vacina baseada em mRNA, poderia ter um efeito semelhante. "Não importa o que você codifica", diz Lin, que observa que o mRNA parece ser o fator "chave", que desencadeia o aumento de citocinas inflamatórias, e prepara o sistema imunológico para o ataque. No futuro, ele explica, os cientistas poderão desenvolver uma vacina universal, que funcione ainda melhor do que as injeções de mRNA direcionadas à espícula.

 

Mas a ideia de que um produto já aprovado, como as vacinas atuais contra a COVID-19, possa ajudar a "potencializar" o sistema imunológico e tornar os pacientes com câncer mais receptivos às imunoterapias, é "realmente empolgante", diz Jeff Coller, biólogo molecular da Universidade Johns Hopkins. Seria muito mais barato do que desenvolver vacinas de mRNA personalizadas para combater tumores, como alguns pesquisadores estão tentando fazer.

 

A descoberta é mais um exemplo do potencial das tecnologias baseadas em mRNA para o tratamento de cânceres raros e doenças genéticas, além de proteger contra infecções. No entanto, os ataques políticos a elas, baseados em preocupações de segurança não comprovadas, estão aumentando, com alguns estados americanos considerando uma legislação para proibir produtos de mRNA. Em agosto, Robert F. Kennedy Jr., secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, anunciou que a agência estava cancelando quase US$ 500 milhões em bolsas para pesquisas com vacinas de mRNA. Tratar algumas aplicações da tecnologia de mRNA como "tabu político" ameaça criar um "efeito inibidor" para a área, diz Coller.

 

É por causa desse "estigma", explica Lin, que sua equipe não tentou buscar financiamento federal para o ensaio clínico planejado. Mas ele continua otimista de que as novas descobertas atrairão interesse e apoio de outros financiadores. "Ainda há muito a aprender", diz ele. "Este é apenas o começo."

  








Alzheimer: um diagnóstico devastador e novas razões para esperança

 

Artigo publicado na Science em 25/09/2025, em que um pesquisador americano afirma que a identificação precoce do Alzheimer, por meio de biomarcadores detectados por imagens PET ou novos exames de sangue, está mudando o cenário da doença.

 

O médico e morador de Kansas City, Brent Beasley, viu sua carreira de mais de 30 anos ser interrompida prematura e permanentemente em 2023. Seu supervisor começou a notar lapsos preocupantes, momentos em que Brent se repetia ou esquecia detalhes cruciais. Para alguém que havia dedicado sua vida a cuidar de pacientes, foi devastador perceber que algo estava seriamente errado.

 

Determinado a entender o que estava acontecendo, Brent recorreu a um colega neurologista, que o encaminhou para o Centro de Pesquisa da Doença de Alzheimer da Universidade do Kansas. Lá, após uma série de exames, incluindo uma punção lombar, ele finalmente recebeu a resposta: Alzheimer de início precoce. Diagnosticado em indivíduos com menos de 65 anos, o Alzheimer de início precoce afeta cerca de 5% de todas as pessoas que vivem com a doença.

 

O diagnóstico foi assustador. "Eu estava muito deprimido. Minha mente saltou para o pior cenário possível", conta Brent. "Como médico, vi pacientes com Alzheimer chegarem ao ponto de ficarem sentados em uma cadeira e não conhecerem ninguém por perto."

 

Para sua esposa, Cindy Beasley, com quem ele tem três filhos, a notícia foi igualmente devastadora, trazendo consigo um turbilhão emocional e financeiro. "O diagnóstico afetou toda a família. Não era bem assim que eu imaginava que nossa vida seria", diz ela. A carreira de Brent era a principal fonte de renda deles, mas o diagnóstico também trouxe uma mudança abrupta na realidade cotidiana. Cindy assumiu todo o peso da gestão do plano de saúde e das finanças, responsabilidades que ela compartilhava antes, mas agora carregava sozinha, enquanto também enfrentava o fardo emocional de ver o homem que amava, mudar de maneiras que nenhum dos dois poderia imaginar.

 

Apesar dos imensos desafios que os Beasleys enfrentaram até agora, Brent se sente grato por enfrentar esta doença, em uma era de rápido progresso científico, uma perspectiva que agora compartilha com outros em uma jornada semelhante. "Vivemos em uma época em que há opções de tratamento, que estão mudando o curso desta doença", afirma.

 

Por décadas, os medicamentos só conseguiam ajudar a controlar sintomas como memória ou comprometimento cognitivo. Essa continua sendo a realidade para muitos pacientes hoje. Mas os avanços no diagnóstico estão mudando o que é possível, permitindo que indivíduos como Brent sejam diagnosticados mais precocemente no processo da doença. A identificação do Alzheimer por meio de biomarcadores, como proteínas anormais detectadas por imagens PET ou exames de sangue emergentes, está mudando o cenário. Para os pacientes, o diagnóstico precoce abre portas para o planejamento, acesso a suporte e potencial participação em ensaios clínicos. Para os pesquisadores, isso proporciona uma janela crítica para estudar e tratar a doença em seus estágios iniciais, quando as intervenções podem ser mais eficazes.

 

Esses avanços estão lançando as bases para o desenvolvimento de terapias, que vão além do controle dos sintomas, para atingir a biologia subjacente do Alzheimer. As famílias não estão sozinhas nessa luta, afirma Fiona Elwood, líder da área de doenças neurodegenerativas da Johnson & Johnson. “Existem milhares de pesquisadores que desejam os mesmos objetivos que pacientes e familiares, trabalhando todos os dias para entender melhor a doença, e desenvolver terapias que podem realmente fazer a diferença. Compartilhamos esse objetivo: trazer progresso significativo para aqueles que vivem com Alzheimer.”

 

Esse impulso crescente na ciência renova o otimismo de Brent. Ele espera que o progresso feito em laboratórios e ensaios clínicos hoje, mude a perspectiva para as gerações futuras. “Há avanços no horizonte que acredito que serão muito eficazes”, afirma. “É realmente impressionante e emocionante ver o quanto avançamos em apenas alguns anos.”

 


COVID-19: A variante “Frankenstein” é perigosa?

 

Artigo publicado na Medscape Pulmonary Medicine em 07/10/2025, onde pesquisadores franceses alertam sobre uma nova variante da Covid-19. 

 

Um relatório recente da Santé publique France, mostra um aumento acentuado nas visitas ao pronto-socorro com suspeita de COVID-19 entre adultos, durante a semana de 15 a 21 de setembro de 2025 (semana 37), especialmente em toda a França.

 

As visitas e hospitalizações relacionadas à COVID-19 aumentaram 43% para crianças menores de 15 anos, com 156 visitas adicionais, e 29% para indivíduos com 15 anos ou mais, com 224 visitas adicionais, em comparação com a semana anterior (semana 36, ​​8 a 14 de setembro).

 

Durante a semana 36, ​​os casos suspeitos de COVID-19 entre adultos já haviam começado a aumentar. O boletim semanal SOS Médecins, relatou um aumento de 9% nas consultas por suspeita de infecção por SARS-CoV-2 (82 visitas adicionais) em todas as faixas etárias, em comparação com períodos comparáveis ​​em anos anteriores, sinalizando os estágios iniciais do surto atual.

 

O boletim semanal da SOS Médecins relatou um aumento de 9% nos casos suspeitos de COVID-19 entre adultos, com 82 consultas adicionais em todas as faixas etárias na mesma semana. Esses números são comparáveis ​​aos relatados anteriormente.

 

De acordo com o Boletim da Rede de Vigilância Sentinela, a incidência de COVID-19 entre pacientes que consultam médicos generalistas por infecções respiratórias agudas, é estimada em 49 casos por 100.000 habitantes, com aproximadamente 32.600 novos casos relatados.

 

A incidência aumentou pela segunda semana consecutiva, aumentando entre adultos de 15 a 64 anos e com 65 anos ou mais, enquanto permaneceu estável entre crianças de 0 a 14 anos.

 

Variante XFG (‘Frankenstein’)

 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), esse aumento está associado ao surgimento de uma nova variante do SARS-CoV-2, a XFG, também chamada de “Variante Frankenstein”, por ser uma variante recombinante de duas outras variantes, a LF.7 e a LP.8.1.2.

 

A XFG foi classificada pela OMS como uma variante sob monitoramento desde 25 de junho de 2025, e está crescendo globalmente. As evidências atuais sugerem que o risco adicional à saúde pública é baixo em todo o mundo, e espera-se que as vacinas contra a COVID-19 aprovadas, permaneçam eficazes contra essa variante para prevenir a doença sintomática e grave. De acordo com a OMS, os dados atuais não indicam que essa variante cause doença mais grave ou aumento da mortalidade do que outras variantes circulantes.

 

Hospitalizações

 

Vários países do Sudeste Asiático relataram aumentos simultâneos de novos casos e hospitalizações, onde a XFG foi amplamente detectada.

 

Globalmente, a OMS observou um aumento acentuado dessa variante na semana epidemiológica 22 em comparação à semana 21: na região do Sudeste Asiático, de 17,3% para 68,7%, na região das Américas, de 7,8% para 26,5%, e na região europeia, de 10,6% para 16,7%.

 

De acordo com o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, o SARS-CoV-2 continua a circular amplamente na UE, com impacto limitado nas hospitalizações. A incidência permanece alta em todas as faixas etárias, embora um pequeno número de países tenha observado tendências de declínio nas últimas semanas.

 

Nas semanas 35-36, a XFG representou 82% das variantes circulantes na Europa.

 

As campanhas de vacinação contra a gripe e a COVID-19 estão programadas para começar em 14 de outubro de 2025. Nesse contexto, a vacina COMIRNATY® LP.8.1, adaptada à variante LP.8.1, recebeu autorização de comercialização da Comissão Europeia em 25 de julho de 2025.

 

A Pfizer anunciou em um comunicado à imprensa que "Esses achados clínicos reforçam os dados pré-clínicos que corroboraram a recente aprovação da vacina contra a COVID-19 adaptada à variante LP.8.1 pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA, que demonstrou melhora nas respostas imunológicas contra múltiplas sublinhagens circulantes do SARS-CoV-2".

 

Comentários


  • email - black circle
  • Instagram - Black Circle

© 2020 Desenvolvido por Kamylle Santos e Bianca Braga 

bottom of page