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CANTIM DA PNEUMO 2026- PARTE I

  • Foto do escritor: Dylvardo Costa Lima
    Dylvardo Costa Lima
  • 5 de jan.
  • 51 min de leitura

Hantavírus surge em navio de cruzeiro: o que os cientistas estão monitorando

 

Artigo publicado na Nature em 04/05/2026, onde pesquisadores de diferentes países afirmam que o grupo de vírus de roedores pode causar doenças em humanos, mas os casos são raros.

 

Pesquisadores de doenças infecciosas estão ansiosos para saber mais, sobre um possível surto de hantavírus em um navio de cruzeiro no Oceano Atlântico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou, que dois passageiros testaram positivo para uma variante do hantavírus, uma família de vírus transmitida por roedores, mas que também pode infectar humanos. Entre os infectados, está uma pessoa que morreu a bordo do MV Hondius, e outro passageiro, que foi evacuado para um hospital na África do Sul.

 

A OMS também informou que outros cinco casos são suspeitos, incluindo os dois passageiros que morreram a bordo, dois tripulantes com sintomas respiratórios e outra pessoa. Os dois tripulantes serão evacuados por motivos médicos, segundo a operadora do navio, a empresa holandesa Oceanwide Expeditions. O MV Hondius está atualmente ancorado na costa de Cabo Verde.

 

A OMS afirma, que as infecções por hantavírus em humanos são raras. Elas geralmente causam febre e sintomas semelhantes aos da gripe, mas podem levar a doenças graves e à morte.

 

Vaithi Arumugaswami, pesquisador de doenças infecciosas da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, afirma que os hantavírus não representam um risco de pandemia, mas o incidente serve de alerta para que os vírus sejam monitorados, e para que mais pesquisas sejam necessárias para o desenvolvimento de vacinas e tratamentos.

 

O que são hantavírus?

 

Existem dois grupos principais de hantavírus. O hantavírus do Velho Mundo é encontrado na África, Ásia e Europa, e causa febre hemorrágica com síndrome renal (FHSR). O hantavírus do Novo Mundo foi encontrado nas Américas, e causa a síndrome pulmonar por hantavírus (SPH).

 

Arumugaswami acredita que os passageiros do navio, provavelmente foram infectados por uma cepa do subgrupo do Novo Mundo, chamada vírus dos Andes, que foi identificada pela primeira vez no Chile e na Argentina em 1995. Esse vírus é preocupante porque pode se espalhar entre pessoas, diz ele.

 

O MV Hondius iniciou sua viagem na Argentina, que enfrenta um surto contínuo do vírus dos Andes, desde o ano passado. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, foram registradas pelo menos 20 mortes pelo vírus no país. O número de casos foi semelhante ao de anos anteriores, mas pesquisadores afirmam, que houve um aumento na taxa de mortalidade.

 

Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, 34% das pessoas infectadas pelo vírus morreram, em comparação com as médias nacionais históricas de 10 a 32% em cada ano entre 2019 e 2024, segundo o Ministério da Saúde da Argentina.

 

Como os hantavírus se espalham?

 

Os humanos geralmente contraem o vírus ao inalar gotículas aerossolizadas de fezes, urina ou saliva, de roedores contaminadas. A transmissão de pessoa para pessoa é possível, mas rara.

 

Qualquer surto no navio, provavelmente resultou do contato com material de um roedor infectado, e não da transmissão entre pessoas, afirma Rhys Parry, virologista molecular da Universidade de Queensland, em Brisbane, Austrália. Várias pessoas podem ter sido expostas através da mesma área contaminada, acrescenta ele.

 

Mais casos podem surgir nos próximos dias ou semanas, diz Parry, porque os sintomas geralmente começam entre uma semana e um mês após a exposição. Isso significa que passageiros ou tripulantes podem ter contraído a doença antes do embarque, durante viagens marítimas ou a bordo.

 

Arumugaswami afirma que o navio partiu de Ushuaia, no sul da Argentina, que fica a mais de 1.500 quilômetros, das áreas onde se sabe que o vírus está circulando. Isso também pode significar que os passageiros infectados contraíram a doença durante viagens pela Argentina antes do embarque, ou que o vírus está circulando sem ser detectado nas regiões mais ao sul do país, acrescenta ele.

 

Para identificar a fonte da infecção, as autoridades de saúde provavelmente coletarão amostras das pessoas a bordo infectadas, e sequenciarão as partículas virais detectadas, afirma Bryce Warner, virologista que estuda hantavírus na Universidade de Saskatchewan, em Saskatoon, Canadá. O sequenciamento poderá identificar a cepa presente no navio em poucos dias, diz Warner.

 

Existem vacinas ou tratamentos?

 

Não há tratamento específico para infecções por hantavírus, afirma Peng Bi, pesquisador de doenças infecciosas da Universidade de Adelaide, na Austrália. Em vez disso, os médicos tentam controlar os sintomas dos pacientes, explica ele.

 

Uma vacina contra o hantavírus causador da HFRS, está disponível na China e na Coreia do Sul, diz Bi, mas essas vacinas não são eficazes contra as cepas que causam a HPS.

 

A baixa prevalência da síndrome pulmonar por hantavírus (SPH), tem dificultado a identificação de um número suficiente de pessoas com a doença, para testar potenciais vacinas e tratamentos em ensaios clínicos, afirma Warner. A pesquisa sobre os vírus também é considerada de alto risco, e poucos laboratórios possuem as medidas de biossegurança adequadas para estudá-los com segurança.

 


Um número "impressionante" de pessoas acredita em alegações não comprovadas sobre vacinas, leite cru e outros assuntos

 

Artigo publicado na Nature em 22/04/2026, onde pesquisadores de diferentes países afirmam que os resultados da pesquisa sugerem um aumento no questionamento das evidências científicas.

 

Mais de dois terços do público acreditam em pelo menos uma afirmação falsa ou sem comprovação científica sobre saúde, como a ideia de que tomar paracetamol durante a gravidez causa autismo, segundo uma nova pesquisa. Os resultados sugerem que um número grande e potencialmente crescente de pessoas, está questionando as evidências científicas.

 

A pesquisa, realizada com mais de 16.000 pessoas em 16 países, perguntou se elas acreditavam em afirmações sem respaldo científico, incluindo aquelas de que “os riscos das vacinas infantis superam os benefícios”, “o flúor na água é prejudicial” e “o leite cru é mais saudável do que o leite pasteurizado”.

 

Para cada afirmação, entre 25% e 32% dos entrevistados disseram acreditar nela, e outra porcentagem considerável (17% a 39%) disse não saber se era verdade. No total, 70% dos entrevistados acreditavam em pelo menos uma das afirmações. As conclusões, que ainda não foram revisadas por pares, e foram publicadas hoje pelo Edelman Trust Institute, em Nova York, foram descritas como "impressionantes", em um artigo complementar escrito pelo diretor executivo, Richard Edelman.

 

O resultado “desmente a ideia” de que tais crenças são compartilhadas apenas por uma minoria de indivíduos desinformados ou ideologicamente motivados, afirma David Bersoff, chefe de pesquisa do Edelman Trust Institute. “Não se trata de um pequeno grupo problemático.”

 

“Definitivamente, tem havido um número crescente de pessoas, que questionam as evidências científicas amplamente aceitas”, concorda Heidi Larson, que estuda a confiança nas vacinas na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. “É importante prestar atenção nisso.”

 

Alegações controversas

 

Outros estudos recentes, destacaram a frequência com que as pessoas questionam o consenso científico ou as práticas médicas baseadas em evidências, pelo menos em certas áreas controversas, como as vacinas. Um estudo global de 2023 constatou que, durante a pandemia de COVID-19, a confiança das pessoas na importância das vacinas para crianças caiu em 52 dos 55 países analisados.

 

Este ano, uma pesquisa da KFF, uma organização sem fins lucrativos de pesquisa em políticas de saúde em São Francisco, Califórnia, descobriu que 34% dos adultos nos Estados Unidos, acreditavam ser definitivamente ou provavelmente verdade que tomar Tylenol (paracetamol) durante a gravidez, aumenta o risco de a criança desenvolver autismo, embora as evidências científicas não sustentem essa ligação.

 

Essa afirmação, e algumas outras mencionadas na pesquisa da Edelman, foram apoiadas pelo secretário de saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., e pelo movimento mais amplo Make America Healthy Again. Mas os resultados do estudo sugerem, que essas crenças se estendem muito além dos Estados Unidos. Na maioria dos países pesquisados, incluindo Brasil, África do Sul, Índia, Alemanha e Reino Unido, pelo menos 50% das pessoas acreditavam em uma ou mais das declarações de saúde "divisivas".

 

As pessoas que acreditavam em três ou mais das afirmações, tinham a mesma probabilidade de ter frequentado a universidade, e maior probabilidade de consumir notícias sobre saúde, do que aquelas que acreditavam em menos delas. Isso desafia a suposição de que as pessoas que sustentam tais opiniões são mal-informadas, afirma Bersoff.

 

O verdadeiro problema, argumenta ele, é a superabundância de informações conflitantes, provenientes das redes sociais, notícias e conversas com outras pessoas na vida real. Em uma pesquisa realizada no Reino Unido e publicada na semana passada, quase 40% dos entrevistados concordaram que “atualmente há informação demais disponível para saber o que é verdade sobre ciência”.

 

Redistribuição da confiança

 

Pesquisas sugerem que, de modo geral, a confiança pública na ciência e nos cientistas, permanece relativamente alta. Nos Estados Unidos, 77% dos adultos em 2025 afirmaram ter confiança de que os cientistas agiriam em prol do interesse público, de acordo com uma pesquisa do Pew Research Center, um centro de estudos de Washington. Este valor é muito superior à proporção daqueles que afirmaram ter confiança em líderes empresariais (37%) ou em funcionários eleitos (27%), embora represente uma queda em relação aos 86% registados em 2019, antes da pandemia de COVID-19.

 

Mas, segundo pesquisadores, as pessoas também confiam cada vez mais em informações de outras fontes. "Acho que o que estamos vendo é talvez uma redistribuição dessa confiança", afastando-a das instituições científicas, afirma Colin Strong, que lidera a área de ciência comportamental na empresa de pesquisa de mercado Ipsos, em Londres. A pesquisa da Edelman mostrou que uma alta proporção de pessoas valoriza recomendações pessoais e influenciadores de mídias sociais como fontes de conhecimento sobre saúde, assim como pessoas com formação acadêmica.

 

"Houve uma proliferação de “especialistas” e de vozes confiáveis ​​e, como resultado, a expertise dos cientistas foi de certa forma diluída", diz Bersoff. "Quanto mais especialistas existem em seu mundo, maior a probabilidade de que, em uma ou mais ocasiões, você se afaste daquilo que a ciência tradicional quer que você acredite."

 

É importante não tratar com condescendência ou desconsiderar pessoas que possam estar desafiando perspectivas estabelecidas por uma ampla gama de razões legítimas, acrescenta Strong. Se os cientistas e as instituições científicas não se comunicarem de forma acessível e útil, nas redes sociais, por exemplo, “as pessoas procurarão outras fontes de informação e evidências”.

 

Novos medicamentos visam uma das mutações mais letais do câncer

 

Artigo publicado na Nature em 07/04/2026, onde pesquisadores de diferentes países afirmam que mutações na proteína KRAS já foram consideradas "intratáveis". Hoje, diversas abordagens estão em desenvolvimento.

 

Munidos de química sofisticada e novas abordagens para o desenvolvimento de fármacos, pesquisadores estão se aproximando de estratégias inovadoras para neutralizar uma proteína mutante causadora de câncer, antes considerada "incurável".

 

Mutações em uma proteína chamada KRAS, alimentam alguns dos cânceres mais letais. Desenvolver medicamentos para desativar a KRAS tem se mostrado um desafio, mas, neste ano, uma área acostumada a decepções, renovou suas esperanças. O primeiro ensaio clínico de um medicamento, que tem como alvo uma forma mutante da KRAS para degradação, mostrou sinais de sucesso. E quatro grandes ensaios clínicos estão testando outro medicamento, que inibe diversas formas mutantes diferentes da KRAS e proteínas relacionadas. O primeiro desses estudos deve divulgar resultados nos próximos meses.

 

É improvável que qualquer uma dessas abordagens, por si só, proporcione uma cura, afirma o Dr. Dieter Saur, gastroenterologista e pesquisador de câncer da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha. Em vez disso, a esperança é que elas possam ser combinadas entre si ou com outros medicamentos, para criar um regime do qual os cânceres com mutação na KRAS, não consigam escapar.

 

“É emocionante. Tantas coisas diferentes estão acontecendo”, diz Saur. “A área mudou completamente.”

 

Ligação prolongada

 

KRAS pertence à família de proteínas RAS, que desempenham papéis fundamentais no crescimento e proliferação celular. Algumas mutações no gene KRAS bloqueiam a proteína em uma posição “ligada”, levando ao crescimento celular descontrolado, que é uma característica do câncer.

 

Isso tornou o KRAS um alvo atraente para o desenvolvimento de medicamentos contra o câncer: encontrar um medicamento que pudesse desativá-lo novamente, segundo o raciocínio, impediria o crescimento do tumor. Mas a superfície relativamente lisa da proteína representava um desafio para os desenvolvedores de medicamentos, que normalmente projetam moléculas que inibem uma proteína, ligando-se a cavidades em sua superfície.

 

E quando os químicos finalmente encontraram compostos capazes de se ligar e desativar o KRAS mutante, os medicamentos se mostraram eficazes apenas por um curto período de tempo. "Em todos os pacientes, observamos o desenvolvimento de resistência", diz Saur. "Não é uma cura."

 

Essa resistência se manifestava de diversas formas, incluindo novas mutações na proteína KRAS e a ativação de outros processos celulares, que poderiam compensar a perda da função do KRAS. Uma esperança era que parte dessa resistência pudesse ser evitada se, em vez de inibir a proteína KRAS mutante, um medicamento fosse capaz de eliminá-la completamente.

 

Marcadores de lixo

 

Entraram em cena os degradadores, compostos que se ligam ao KRAS e o ancoram a outra proteína, chamada ligase de ubiquitina E3. A ligase marca quimicamente a KRAS como lixo celular, levando o mecanismo de processamento de resíduos da célula, a degradar a proteína e eliminá-la.

 

É um processo complexo de manipular, afirma Kevan Shokat, biólogo químico da Universidade da Califórnia, em São Francisco. "A complexidade e a ginástica envolvidas são enormes, às vezes a proteína consegue ser degradada, outras vezes não", explica.

 

Mesmo assim, o oncologista Wungki Park, do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York, se interessou pela ideia de degradadores de KRAS. "É possível reeducar a célula: 'ei, isso é descartável, vamos remover'", diz ele.

 

Em março, Park e seus colegas relataram os resultados do primeiro degradador de KRAS testado em humanos. O medicamento, chamado setidegrasib e produzido pela Astellas Pharma em Tóquio, reduziu tumores em mais de um terço dos participantes com um tipo de câncer de pulmão, e em quase um quarto daqueles com um tipo de câncer de pâncreas.

 

Obter qualquer benefício, por menor que seja, é um grande passo para uma nova classe de medicamentos contra um alvo complexo, afirma Rona Yaeger, oncologista e pesquisadora de câncer do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, que não participou do estudo. Mas a resistência ao medicamento ainda era um problema, e a duração das respostas ao medicamento “não era tão longa quanto gostaríamos”, acrescenta ela.

 

“Os dados são muito animadores, mas ainda é cedo”, diz Yaeger. “Isso nos dá uma base para construirmos novos estudos. Haverá mais pesquisas a serem feitas.”

 

Juntos somos mais fortes

 

Outros grupos também estão desenvolvendo degradadores de KRAS, cada um com sua própria composição específica. E Park já está de olho no futuro: combinações de degradadores de KRAS com outros medicamentos, potencialmente aqueles que podem inibir qualquer forma mutante da proteína, bem como seus parentes na família de proteínas RAS.

 

Um desses inibidores, chamado daraxonrasib, liga-se especificamente às formas ativas de KRAS e seus parentes, interrompendo sua capacidade de impulsionar o câncer. Os primeiros ensaios clínicos têm sido promissores, e os resultados de um grande estudo com daraxonrasib, são esperados para o primeiro semestre deste ano, realizado pela Revolution Medicines, sua desenvolvedora, em Redwood City, Califórnia.

 

Com esses e outros medicamentos para KRAS a caminho, a área enfrenta um novo desafio: decidir quais combinações testar primeiro, diz Shokat. Em março, ele e um colega divulgaram dados, ainda não revisados ​​por pares, sugerindo que a combinação de daraxonrasib com um dos primeiros inibidores de KRAS, um medicamento chamado adagrasib, já aprovado nos Estados Unidos, poderia aumentar drasticamente a eficácia dos medicamentos, em comparação com o uso de qualquer um deles isoladamente.

 

“Se combinarmos esses elementos da maneira correta, podemos obter uma sinergia enorme”, diz Shokat. “É apenas uma questão de tempo.”

 


Síndrome de Alice no País das Maravilhas

 

Artigo publicado na Medscape Pulmonary Medicine em 21/03/2026, em que um pesquisador americano afirma que essa síndrome é comumente associada a enxaqueca, infecções virais e doenças neurológicas, mas ainda é pouco compreendida.

 

A Síndrome de Alice no País das Maravilhas (SAPM) é um fenômeno neurológico raro, caracterizado por uma série de distorções perceptivas, que podem afetar a visão, a autopercepção corporal e até a noção do tempo. Essa síndrome é comumente associada a migrânea, infecções virais e doenças neurológicas, mas ainda é pouco compreendida.

 

A SAPM pode se manifestar de várias maneiras, com distorções visuais, como micropsia e macropsia, na percepção do tamanho do próprio corpo e do tempo, o que faz da doença um assunto de grande complexidade para o estudo médico.

 

Um dos focos das pesquisas recentes sobre a doença, tem sido a investigação das suas possíveis bases neurológicas, principalmente sua correlação com a enxaqueca. Estudos demonstraram que a SAPM é frequentemente relatada entre indivíduos que sofrem de migrânea, com a literatura sugerindo um mecanismo fisiopatológico comum entre as duas. Além disso, alguns estudos de neuroimagem sugeriram alterações em regiões específicas do cérebro relacionadas ao processamento visual e sensorial, corroborando a ideia de que há uma base neural para a síndrome.

 

A complexidade dos sintomas da Síndrome de Alice no País das Maravilhas requer uma abordagem multidisciplinar para o diagnóstico e tratamento, integrando neurologia e psiquiatria, nas estratégias de cuidados abrangentes. Os resultados do tratamento variam amplamente entre os pacientes, com alguns respondendo bem aos medicamentos tradicionais para migrânea, enquanto outros, requerem um regime terapêutico mais personalizado. As pesquisas continuam a estudar marcadores neurofisiológicos associados à SAPM, o que pode vir a aumentar a precisão do diagnóstico e permitir novas descobertas sobre seus mecanismos subjacentes.

 

Apesar da ausência de critérios formalmente estabelecidos, os principais critérios diagnósticos para SAPM associada à migrânea citados na literatura, são episódios transitórios (até 60 minutos) e recorrentes, caracterizados por distorções perceptivas, como alterações na percepção espacial e de tamanho (micropsia e macropsia) e distorção do tempo. A literatura destaca que essas alterações perceptivas geralmente coincidem com episódios de migrânea, normalmente em até 60 minutos, categorizando a experiência como Síndrome de Alice no País das Maravilhas e associando-a a auras de migrânea conhecidas.

 

As abordagens diagnósticas tradicionais enfatizam a clareza dos sintomas, embora estudos recentes destaquem a importância da experiência subjetiva no estabelecimento do diagnóstico, com pesquisas indicando que a consciência das distorções pode variar de uma pessoa para outra; alguns estão plenamente conscientes de que suas percepções são ilusórias, enquanto outros podem não ter essa percepção, não sendo este um critério obrigatório. Essa variabilidade sugere que as experiências de Síndrome de Alice no País das Maravilhas podem ocorrer num espectro em que a percepção não é obrigatória para um diagnóstico viável, especialmente quando associada a outras características da migrânea.

 

A depressão cortical disseminada (DCD) é definida como uma onda de despolarização que se propaga pelo córtex cerebral, seguida por uma depressão transitória da atividade neuronal. Essa despolarização foi observada em vários fenômenos neurológicos, particularmente em distúrbios de migrânea, onde se correlaciona com o início dos sintomas de aura, e sua dinâmica espacial e temporal, se assemelha muito à observada nos distúrbios visuais relacionados à migrânea, que são características da Síndrome de Alice no País das Maravilhas, como já vimos. Assim, pesquisadores propuseram que a DCD, pode estar na base das distorções perceptivas associadas à doença, particularmente nos casos em que os pacientes também apresentam migrânea.

 

O mecanismo da DCD começa com a hiperexcitabilidade neuronal, observada em muitos pacientes com migrânea. A hiperexcitabilidade pode levar ao início de uma onda de despolarização, que se propaga por grandes áreas corticais, e uma fase subsequente de supressão da atividade cortical, pode resultar nos distúrbios sensoriais observados na SAPM.

 

A infecção pelo vírus Epstein-Barr é consistentemente associada à Síndrome de Alice no País das Maravilhas. Esse vírus pode desencadear manifestações neurológicas, incluindo distorções perceptivas, que se correlacionam com as observadas na doença. A presença do vírus foi também documentada, como causadora de complicações no sistema nervoso central, podendo afetar o processamento sensorial e resultar em anomalias perceptivas semelhantes às observadas na SAPM. Ainda, pesquisas sugerem que infecções virais, pelo vírus Epstein-Barr, por exemplo, podem provocar respostas inflamatórias no sistema nervoso central, interrompendo o funcionamento normal da conectividade e dos circuitos neurais envolvidos na percepção sensorial, podendo também ser esse um dos fatores contribuintes para SAPM.

 

A literatura também discute a Síndrome de Alice no País das Maravilhas como uma complicação da Covid-19. Como sabemos, a inflamação induzida pela Covid-19 pode envolver tempestades de citocinas e respostas neuroinflamatórias, que contribuem para sequelas neurológicas semelhantes às da SAPM. Casos específicos relataram indivíduos que apresentaram sintomas semelhantes após a recuperação da Covid-19, sugerindo um perfil neurológico pós-infeccioso, que pode se manifestar por meio dessas alterações perceptivas.

 

No contexto pediátrico, há uma associação considerável entre Síndrome de Alice no País das Maravilhas e infecções virais, particularmente influenza e Covid-19. A síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica, associada ao SARS-CoV-2, exemplifica como as infecções virais podem levar a uma inflamação sistêmica significativa, que pode exacerbar patologias preexistentes, as quais por sua vez podem contribuir para os sintomas da SAPM. Nesses casos, a resposta inflamatória parece afetar as vias neuronais, possivelmente levando a distorções perceptivas.

 

Uma observação importante das análises eletroencefalográficas em pacientes com a Síndrome de Alice no País das Maravilhas, é a presença de atividade teta rítmica, com estudos de caso tendo documentado o achado no hemisfério cerebral direito, coincidindo com episódios de SAPM. Esse fenômeno sugere que alterações eletrofisiológicas podem refletir alterações nos processos corticais subjacentes à percepção. Os ritmos teta, normalmente associados à sonolência ou ao sono leve, podem indicar alterações na consciência ou no processamento sensorial, o que se alinha com as experiências subjetivas relatadas por indivíduos com a doença.

 

Além da atividade teta, algumas publicações discutem a variabilidade das correlações do eletroencefalograma em casos de Síndrome de Alice no País das Maravilhas, e que nem todos os pacientes apresentam consistentemente achados anômalos identificáveis no eletroencefalograma durante os episódios, sendo essa avaliação importante para o diagnóstico da doença em pacientes com epilepsia. Avaliações eletrofisiológicas produziram resultados inconclusivos em alguns casos, com estudos de neuroimagem revelando alterações estruturais ou funcionais. Essa variabilidade destaca a complexidade da patologia, indicando que ela pode se manifestar por meio de diferentes mecanismos neurofisiológicos.

 

O verapamil é reconhecido pela sua eficácia no tratamento preventivo de certos tipos de migrânea, e atua bloqueando os canais de cálcio, o que reduz a excitabilidade neuronal e pode diminuir a frequência das crises de migrânea, levando potencialmente a uma redução de até 55% na ocorrência de Síndrome de Alice no País das Maravilhas. Dado que os pacientes com a doença frequentemente relatam distorções perceptivas durante os episódios de migrânea, o controle da migrânea com medicamentos profiláticos eficazes, como o verapamil, pode reduzir a incidência e a gravidade dos sintomas da SAPM.

 

Além do tratamento farmacológico, as intervenções não farmacológicas são fundamentais. Terapia cognitivo-comportamental, modificações no estilo de vida e técnicas de controle do estresse, podem reduzir significativamente a frequência e a intensidade dos episódios de migrânea. Alguns estudos sugerem, que essas abordagens também podem ajudar a limitar os episódios de Síndrome de Alice no País das Maravilhas, portanto informar os pacientes sobre a doença e as medidas preventivas, é essencial para melhorar sua capacidade de controlar os episódios de enxaqueca e, potencialmente, reduzir os sintomas da SAPM.

 


Decifrando a Gripe D

 

Artigo publicado na Science em 19/02/2026, onde pesquisadores americanos afirmam que uma misteriosa cepa de gripe infecta o gado em todo o mundo. E eles temem que isso possa se tornar uma ameaça para os seres humanos também.

 

Nuevo León, no México – Na madrugada de uma manhã de dezembro de 2025, pesquisadores da cidade de Monterrey, no México, carregaram uma grande van de passageiros com seringas, cotonetes, tubos de ensaio, amostradores de ar e refrigeradores. Eles então dirigiram pelo interior plano por 2 horas, deixando as montanhas Sierra Madre Oriental à distância, até chegarem a um lote de alimentação que tinha 24.000 cabeças de gado. “Em todos os lugares que você olha, até o horizonte, são vacas”, disse Gregory Gray, clínico de doenças infecciosas e epidemiologista da Universidade do Texas Medical Branch.

 

Na fazenda, a equipe começou a esfregar nariz e coletar amostras de sangue dos animais. Gustavo Hernández-Vidal, veterinário da Universidade Autônoma de Nuevo León, caminhou com Thang Nguyen-Tien, virologista no laboratório de Gray, até uma longa curral que detinha cerca de 100 bovinos doentes. A partir de uma viga, Nguyen-Tien pendurou um amostrador de bioaerossol que suga o ar e o gira para separar partículas e coletar material genético viral. Curioso, o veterinário chefe da fazenda perguntou o que eles estavam fazendo.

 

“Queremos ver o que as vacas estão respirando”, disse Hernández-Vidal.

“As vacas e nós”, respondeu o veterinário.

 

A equipe estava aqui para estudar a gripe D, um novo membro misterioso e inquietante da família dos vírus da gripe. Eles queriam entender melhor onde e como ele se espalha, e se ele poderia se tornar uma ameaça para os seres humanos.

 

Dos quatro tipos conhecidos de gripe, o tipo A é o maior problema da humanidade. Espalhando-se facilmente pelo ar, causa epidemias anuais que matam dezenas de milhares de pessoas. Também infecta muitas outras espécies animais, e diferentes cepas do vírus A, podem trocar material genético, criando variantes recombinantes, que são novas para o nosso sistema imunológico e desencadeiam pandemias. Um subtipo da gripe A, conhecido como H5N1, tem devastado populações de aves domésticas e selvagens nos últimos 30 anos, e é amplamente temido por seu potencial pandêmico.

 

O vírus da gripe D, conhecido em taquigrafia como IDV ou gripe D, tem várias das características preocupantes da gripe A: ocorre em todo o mundo, infecta várias espécies e gosta de recombinação. “Está demonstrando todas as características de um patógeno emergente para animais e seres humanos”, diz o virologista Suresh Kuchipudi, que estuda o IDV na Universidade de Pittsburgh.

 

O gado é o principal reservatório do IDV, e a doença também os afeta, contribuindo para o complexo respiratório bovino (CRB), também conhecido como doença do transporte, uma enfermidade comum e dispendiosa causada por uma mistura de vírus e bactérias. "Isso pode muito bem explicar parte desse enorme problema", diz Gray, que se reuniu com um fazendeiro americano que relatou ter perdido, em alguns meses, 10% de seus bezerros devido ao CRB.

 

Mas os humanos também podem ser infectados pelo IDV. Vários estudos, incluindo um realizado anteriormente pela equipe EUA-México no mesmo confinamento de gado, encontraram anticorpos contra o vírus em trabalhadores rurais, indicando que eles foram expostos a ele. Ainda não há evidências de que tenham adoecido, mas o IDV pode evoluir para infectar e adoecer pessoas com mais facilidade, afirma Gray, que ajudou a descobrir meia dúzia de vírus em humanos e animais. "Precisamos estar preparados para responder", diz ele. "O que hoje parece ser um vírus silencioso em animais de criação pode, sem aviso prévio, desencadear a próxima pandemia de gripe", alertaram o veterinário Cody Warren, da Universidade Estadual de Ohio (OSU), que mostrou que o vírus da gripe D infecta facilmente as células encontradas nas vias aéreas humanas.

 

No entanto, a pesquisa está avançando lentamente. Alguns financiadores ainda não estão convencidos, de que a gripe D represente uma ameaça séria, e os agricultores frequentemente se preocupam, que testar seus animais e funcionários, possa prejudicar seus lucros. Apenas cerca de 200 artigos foram publicados sobre o IDV, muito menos do que esse vírus merece, diz Andrew Bowman, veterinário de suínos da OSU, que colaborou com Warren. "Não quero ser sensacionalista, mas sejamos honestos, não sabemos muito sobre esse vírus", diz ele.

 

Gray concorda, e foi por isso que ele veio a esta fazenda. "Quem não procura, não encontra", é o seu mantra.

 

Ben Hause descobriu a gripe D por acaso, em 2011. Hause então dirigia o departamento de diagnóstico da Newport Laboratories, uma fabricante de Minnesota de vacinas veterinárias personalizadas, que um número crescente de agricultores dos EUA usa para proteger vacas, suínos e aves. Hause, que também estava trabalhando em um doutorado em virologia, ficou intrigado com um porco de 15 meses de uma fazenda em Oklahoma, que apresentava sintomas semelhantes aos da gripe. Ele isolou um vírus do porco que, assim como os vírus da gripe, matava as células dos testículos suínos. Mas os testes de reação em cadeia da polimerase descartaram a influenza A.

 

Na época, os pesquisadores conheciam outros dois tipos de vírus da influenza, ambos afetando principalmente humanos. A influenza B, descoberta em 1940, circula todos os invernos, assim como a influenza A, mas geralmente é mais branda. A influenza C, identificada em 1947, é ainda mais branda. O estranho vírus suíno se assemelhava ao C, mas não de forma idêntica. "Lembro-me de pensar: 'Nossa, isso vai ser um grande problema, descobrimos um tipo totalmente novo de gripe'", diz Hause, que agora trabalha na Cambridge Technologies, outra fabricante de vacinas autógenas.

 

Sua equipe descobriu que o vírus podia se espalhar entre os porcos por contato. Nenhum adoeceu, mas ele temia que a notícia da descoberta, pudesse prejudicar a indústria suína. Ainda havia cicatrizes de 2009, quando um subtipo da gripe A, conhecido como H1N1, passou de porcos para humanos, causando uma pandemia inicialmente chamada de “gripe suína”. (O vírus foi posteriormente renomeado para “H1N1 pandêmico”.) Hause e Li pediram a Richard Webby, um renomado pesquisador de gripe do St. Jude Children’s Research Hospital, que os ajudasse a estudar o novo vírus, mas o aconselharam a “manter tudo em segredo, pelo menos inicialmente”, lembra Hause.

 

Webby descobriu que o vírus podia se espalhar por contato direto entre furões, um modelo para estudar a gripe em mamíferos, o que sugeria um risco de transmissão de porcos para humanos. Mas, ao contrário dos vírus da gripe A e B, que infectam humanos todos os anos, ele não se espalhava entre os furões por gotículas respiratórias, e não os deixava doentes.

 

Quando Hause, Li, Webby e seus colegas, publicaram um relatório sobre suas descobertas em 2013, descreveram o vírus como “distantemente relacionado” à gripe C, com a qual o novo vírus compartilhava cerca de metade de seu genoma. “Eu não achava que tínhamos informações suficientes para justificar a proposta de classificá-lo como um novo gênero”, diz Hause.

 

No ano seguinte, Hause, Li e seus colegas, encontraram o vírus em 18% do gado americano com doença respiratória. Oito rebanhos bovinos em cinco estados, apresentavam anticorpos contra ele. “Foi uma grande surpresa”, diz Li. Outro dado impressionante: a equipe não conseguiu criar variantes recombinantes entre o novo vírus e o vírus da gripe C, o que deveria ocorrer, se pertencessem ao mesmo tipo. Por sugestão de um revisor, eles propuseram dar-lhe um novo nome, gripe D, em um artigo de 2014. Eles argumentaram que as vacas, e não os suínos, eram o principal reservatório do vírus.

 

Logo, pesquisadores começaram a encontrar o vírus da gripe D em fazendas de gado na América do Norte, Europa, Ásia, África e Austrália. Um estudo realizado em fazendas leiteiras suecas, encontrou anticorpos contra o vírus da influenza D no leite a granel. A equipe de Gray também encontrou o vírus em amostras de aerossóis, coletadas em granjas avícolas na Malásia. Anticorpos contra a gripe D, também foram encontrados em ovelhas, cabras, camelos, veados, cavalos, javalis, gatos e cães.

 

Essa ampla variedade de espécies é preocupante. Ela abre caminho para que duas variantes virais adaptadas a diferentes espécies coinfectem o mesmo animal e sofram recombinação genética, criando descendentes mais aptos a burlar a imunidade existente na população humana. A cepa H1N1, causadora da pandemia de 2009, por exemplo, combinou segmentos genéticos de vírus da gripe A em suínos, aves e humanos.

 

A gripe D pode ter a mesma capacidade. Em um artigo de 2024, o grupo de Kuchipudi, analisou as sequências genéticas do vírus da influenza aviária (IDV) encontradas em amostras de gado, que datam de 2005. Eles concluíram que o vírus evoluiu rapidamente, sugerindo frequentes translocações entre espécies animais, o que significa que ele pode formar muitos recombinantes, afirma Kuchipudi. "Este é um vírus ao qual devemos prestar atenção proativamente", diz ele.

 

Quanto maior a diversidade entre as cepas que misturam seus genomas, maior a probabilidade de produzirem uma cepa radicalmente nova, que poderia desencadear uma pandemia. Os vírus da gripe B e C não variam muito, e os anticorpos contra uma linhagem, geralmente funcionam contra outras. A gripe A é muito mais diversa, com 130 subtipos identificados até o momento, o que lhe permite produzir recombinantes que surpreendem o sistema imunológico. A gripe D parece estar em algum lugar entre esses dois extremos, com cinco linhagens, uma das quais pode ser considerada um subtipo próprio. Pode haver mais, diz Kuchipudi: "Muitas partes do mundo, nem sequer procuraram por esse vírus".

 

A gripe D também pode infectar humanos ocasionalmente, e os trabalhadores de fazendas de gado estão especialmente em risco. Em quatro estudos publicados pela equipe de Gray, entre 0,8% e 97% dos trabalhadores expostos a animais infectados, apresentaram anticorpos contra o vírus. Muitos fatores podem explicar essa grande variação, diz Gray, incluindo diferenças na sensibilidade dos testes, quantos animais na fazenda estavam doentes e quanto vírus eles produziram, e o grau de interação dos trabalhadores rurais com o gado.

 

Anticorpos contra um vírus não comprovam que a infecção ocorreu. Como os genomas da gripe C e da gripe D são cerca de 50% idênticos, por exemplo, anticorpos desencadeados por um, podem apresentar reação cruzada com o outro. Até o momento, ninguém encontrou um vírus da gripe D intacto em humanos e o cultivou em laboratório, a prova definitiva de infecção. Mas, em 2023, Gray e seus colegas relataram ter encontrado fragmentos do vírus em amostras nasais de trabalhadores rurais. Pesquisadores do Instituto de Virologia e Imunologia da Suíça demonstraram, que o vírus da gripe D se replica melhor em células das vias aéreas humanas do que o vírus da gripe C. As evidências de infecções em humanos são “imperfeitas”, mas “bastante convincentes”, diz Gray.

 

A população em geral está muito menos exposta ao vírus. Por exemplo, Hause e seus colegas encontraram anticorpos em apenas 1,3% de 316 amostras armazenadas, de pessoas que participaram de estudos sobre vacinas contra a gripe.

 

Mas um artigo surpreendente da China, publicado em outubro de 2025, sugeriu que muito mais pessoas na população em geral foram expostas naquele país. Uma equipe liderada por Gao Yuwei, do Instituto de Pesquisa Veterinária de Changchun, descobriu que, entre 612 pessoas de áreas urbanas e rurais do norte da China, 73% testaram positivo para anticorpos. Em pessoas com doenças respiratórias, esse número subiu para 97%.

 

Outros cientistas questionam os dados. “Tive dificuldade em aceitar” os números elevados, diz Webby. Ele e outros pesquisadores afirmam, que a equipe chinesa usou um limite muito baixo para os níveis de anticorpos, e pode ter muitos falsos positivos. Se o IDV tivesse circulado tão amplamente entre as pessoas no norte da China, diz Webby, “provavelmente teria sido detectado em algum momento”, visto que a China realiza extensos sequenciamentos genômicos de patógenos.

 

A equipe chinesa também sugeriu que o vírus era mais eficiente na transmissão entre humanos do que se supunha. Ao contrário de Webby, eles descobriram que ele era capaz de se espalhar pelo ar entre furões, um fator que “pode ter facilitado a sua capacidade de se disseminar para humanos”, escreveram os pesquisadores. Webby, também sem saber ao certo o que pensar desses dados, observa que a equipe usou uma cepa viral isolada recentemente na China. “Talvez essa versão específica da gripe D tenha um potencial zoonótico um pouco maior do que outras”, diz ele. “Estamos tateando no escuro.” Gao e seus coautores não responderam aos repetidos pedidos de entrevista da Science.

 

Em seu estudo de campo no México, Gray, Hernández-Vidal e seus colegas, visitaram duas granjas avícolas, além de um confinamento de gado. A coleta de amostras das galinhas foi relativamente simples. Caminhando por galpões repletos cada um com 15.000 aves jovens, os veterinários selecionavam aquelas que pareciam doentes ou que haviam morrido, e coletavam amostras de suas bocas e cloacas, em um posto de teste improvisado. Repetiram o procedimento em outra granja, que abrigava aves mais velhas, em gaiolas, que estavam botando ovos. Em 3 horas, haviam coletado amostras de 67 aves. Também coletaram amostras de sangue e secreção nasal dos trabalhadores rurais.

 

A coleta de amostras das vacas foi mais difícil. No confinamento, os vaqueiros apalpavam e assobiavam para guiar tanto as vacas doentes quanto as presumivelmente saudáveis, ​​através dos portões até um corredor, que levava a um "brete de contenção", um dispositivo hidráulico do tamanho de um carro pequeno. A máquina tinha laterais ajustáveis ​​que seguravam a vaca com firmeza, mas delicadamente, com a cabeça para fora em uma das extremidades. Em seguida, a equipe coletava amostras das narinas e do rabo ou da orelha. Foram necessárias 4 horas, para coletar amostras de 40 cabeças de gado.

 

Os pecuaristas muitas vezes relutam em submeter seus animais e seus tratadores a testes de patógenos. De fato, o pecuarista americano, que viu seu gado dizimado pelo BRDC, decidiu não os testar para o vírus da gripe D, conta Gray: "O advogado da fazenda achou que eu poderia prejudicar seus lucros". Gray veio ao México, em parte porque, muitos pecuaristas americanos o rejeitaram.

 

Hernández-Vidal, que dirige a faculdade de veterinária de sua universidade, afirma que, ao diagnosticar e tratar animais doentes, seu grupo desenvolveu fortes laços com muitas fazendas ao redor de Monterrey. "Temos conquistado a confiança deles", disse. "Tentamos convencê-los de que essa é a única maneira de ajudá-los, se soubermos o que realmente está acontecendo com seus animais."

 

O financiamento para estudos sobre o vírus da influenza aviária (IDV) tem sido escasso. Uma das principais pesquisadoras europeias sobre a gripe D, Mariette Ducatez, do Instituto Nacional de Pesquisa Agrícola, Alimentar e Ambiental da França, estuda o vírus há uma década, é coautora de 25 artigos sobre ele, e angariou mais de US$ 1,5 milhão para apoiar um consórcio europeu e diversas parcerias, e, no entanto, atualmente não possui financiamento específico para estudar o vírus.

 

Mas o surgimento surpreendente de um vírus da gripe diferente, o H5N1, em bovinos leiteiros dos EUA em 2024, aumentou a preocupação. "Para ser honesto, nenhum de nós havia sequer cogitado testar o gado para qualquer gripe aviária", diz Kuchipudi. Desde então, ele reapresentou uma proposta de pesquisa sobre a gripe D, que o Departamento de Agricultura dos EUA havia rejeitado alguns anos antes, enfatizando a importância de estudar o IDV, antes que a situação saia do controle. "Isso fez toda a diferença", diz ele.

 

Mesmo que o vírus nunca represente uma ameaça para os humanos, ele é um fardo para os pecuaristas, afirma Spencer Wolter, veterinário do Minton Veterinary Service, que trabalha com cerca de 300 fazendas de gado em 13 estados. Embora a maioria das vacas sobreviva aos episódios de BRDC (Doença Respiratória Bovina), a doença retarda seu crescimento, custando um prejuízo à indústria americana, de pelo menos US$ 1 bilhão por ano, segundo estimativas. “O gado só pode crescer até o tamanho de sua capacidade pulmonar, tudo precisa de oxigênio, certo?”, diz Wolter. “Se um bezerro tiver dois ou três problemas respiratórios, mesmo que o produtor utilize os melhores antibióticos do mundo, esse pulmão nunca se recuperará completamente.”

 

Alguns pecuaristas já vacinam seu gado contra a influenza D com formulações autógenas, produzidas isolando o vírus de animais doentes, cultivando-o e inativando grandes lotes. Uma empresa, a Medgene, vende uma vacina, que contém apenas a proteína de superfície do vírus da influenza D. Ainda assim, muitos agricultores não usam as vacinas, em parte porque desconhecem o vírus, diz Wolter, e poucos laboratórios realizam testes para detectá-lo. Isso deixa o gado e as pessoas que trabalham com ele em risco.

 

Os órgãos reguladores dos EUA não exigem que os fabricantes dessas vacinas comprovem sua eficácia, mas diversos experimentos com animais demonstraram o potencial das vacinas candidatas contra o IDV. Um artigo publicado por Hause e colaboradores, descreveu como uma vacina feita com IDV inativado reduziu os níveis virais em bezerros infectados intencionalmente. Um grupo que inclui seu antigo mentor, Li, mostrou que uma vacina de DNA, que expressa a proteína da superfície viral, teve um efeito semelhante em porquinhos-da-índia. A equipe de Gao, na China, relatou mais recentemente que sua vacina com IDV inativado protegeu porquinhos-da-índia da transmissão por contato com companheiros de gaiola infectados.

 

Kuchipudi e seus colaboradores desenvolveram uma vacina, que visa imitar mais de perto uma infecção natural, e esperam que ela seja ainda mais eficaz. Ela consiste em um IDV modificado que infecta as células, mas não consegue se replicar. Eles planejam administrar a vacina em forma de spray nasal, onde ela pode desencadear imunidade da mucosa, uma defesa imunológica reforçada no local da infecção. Os testes podem começar ainda este ano.

 

No confinamento de gado mexicano, que recebe animais transportados de diversas fazendas, foi fácil perceber como os vírus respiratórios podem se espalhar rapidamente entre o gado. “As vacas são animais muito afetuosos e tendem a se agrupar”, disse Jessica Rodriguez, que cresceu em uma fazenda de gado no Texas e está cursando doutorado em epidemiologia com Gray.

 

Dois dias de trabalho nas fazendas mexicanas renderam 155 amostras, que foram enviadas de avião para o laboratório de Gray no Texas. Os pesquisadores encontraram o vírus da influenza D (IDV) em amostras nasais de seis vacas doentes e oito aparentemente saudáveis, 35% do gado amostrado. Uma vaca estava infectada com o vírus da influenza C. Os pesquisadores planejam analisar as amostras em busca de outros vírus novos que possam prejudicar humanos ou animais, incluindo um novo coronavírus que Gray e Hernández-Vidal descobriram em vacas doentes nesta fazenda em 2024.

 

Observando grandes bandos de andorinhas-das-chaminés, circulando pelos currais e pousando em vigas e portões, Hernández-Vidal se perguntou se elas poderiam estar disseminando o vírus da influenza D, o que acontece rotineiramente com o vírus da influenza A. "Isso seria um problema muito sério", disse ele.

 

"Ninguém está fazendo testes para isso", acrescentou Gray.

 

Explicados os efeitos colaterais raros e perigosos de algumas vacinas contra a COVID-19 

 

Artigo publicado na Science em 11/02/2026, onde pesquisadores de diferentes nacionalidades afirmam que um estudo “inovador” revelou por que as injeções à base de adenovírus causaram coágulos sanguíneos e sangramentos com risco de vida em algumas pessoas. 

 

Em fevereiro de 2021, logo após o lançamento das primeiras vacinas contra a COVID-19 na Europa, a hematologista Sabine Eichinger, da Universidade Médica de Viena, deparou-se com um caso perturbador: uma enfermeira de 49 anos, que apresentou coágulos sanguíneos incomuns e sangramento incontrolável após receber a vacina da AstraZeneca. A mulher faleceu, e Eichinger não conseguia esquecer o caso. A vacina parecia ser a única explicação plausível para os sintomas, e Eichinger se preocupava com o que isso poderia significar para o futuro da vacina. "Eu mal conseguia dormir", conta. Eichinger chegou a acompanhar a autópsia da paciente, na esperança de encontrar alguma outra explicação.

 

Como isso não aconteceu, ela recorreu ao hematologista Andreas Greinacher, da Universidade de Greifswald, que havia passado décadas estudando um fenômeno raro e surpreendentemente semelhante, em pacientes que receberam o anticoagulante heparina. Essa doença é causada por anticorpos contra o PF4, uma proteína envolvida na coagulação sanguínea. Em poucos dias, o laboratório de Greinacher confirmou, que a paciente de Eichinger também possuía esses anticorpos.

 

Mais casos de trombocitopenia e trombose imune induzidas por vacina (TTII), como a síndrome ficou conhecida, surgiram na Europa entre os que receberam a vacina da AstraZeneca, e também em pessoas nos Estados Unidos que haviam recebido uma vacina similar contra a COVID-19, produzida pela Johnson & Johnson (J&J). Elas também apresentavam anticorpos PF4. A condição mostrou-se rara, ocorrendo em aproximadamente uma em cada 200.000 pessoas que receberam as vacinas, mas as preocupações de Eichinger se confirmaram. Muitos países europeus restringiram o uso da vacina da AstraZeneca a idosos, que eram os mais vulneráveis ​​à COVID-19, ou a abandonaram completamente. Nos EUA, onde a vacina da AstraZeneca nunca foi aprovada, a vacina da J&J acabou sendo descartada.

 

Agora, após anos de investigação, a equipe de Greinacher e outros dois grupos, identificaram a causa da TTII. Ambas as vacinas usaram um adenovírus para transportar o gene da proteína spike do vírus da COVID-19 para as células humanas. Em um artigo publicado hoje no The New England Journal of Medicine, os cientistas mostram como uma proteína do adenovírus desencadeia anticorpos "rebeldes", em pessoas com uma combinação infeliz de predisposição genética, e uma mutação específica em suas células B produtoras de anticorpos. Em vez de atacar uma proteína viral, os anticorpos rebeldes se ligam ao PF4, desencadeando uma cascata perigosa.

 

"Este é um trabalho belíssimo", afirma Stanley Plotkin, veterano desenvolvedor de vacinas e professor emérito da Universidade da Pensilvânia. "É algo inovador", diz Gowthamai Arepally, hematologista da Universidade Duke. E embora as duas vacinas contra a COVID-19 já não estejam mais disponíveis, dando lugar a vacinas baseadas em outras tecnologias, uma vacina contra o Ebola baseada em adenovírus, já está no mercado, e vacinas semelhantes contra muitas outras doenças, estão em desenvolvimento. Os novos dados sugerem que eles também podem causar TTII, mas poderiam ser tornados mais seguros com alterações no adenovírus.

 

Diversas pistas nos últimos anos, ajudaram os pesquisadores a desvendar o enigma. Uma delas veio dos imunologistas Jing Jing Wang e Tom Gordon, da Universidade Flinders, que em 2022 descobriram que todos os pacientes com TTII apresentavam anticorpos anti-PF4 quase idênticos. Outra pista veio do hematologista Theodore Warkentin, da Universidade McMaster, que com seus colegas encontraram alguns casos em que uma infecção natural por adenovírus, causou sintomas semelhantes aos da TTII. Esses pacientes também apresentavam o anticorpo característico. Isso apontava para algo no adenovírus como o culpado, afirma Greinacher. 

 

Usando espectrometria de massa, os pesquisadores analisaram detalhadamente a sequência de aminoácidos nos anticorpos anti-PF4 de 21 pacientes com trombocitopenia e trombose imune induzidas por vacina. Todos continham uma semelhança fundamental: na posição 31 da chamada cadeia leve do anticorpo, eles apresentavam o aminoácido ácido glutâmico ou ácido aspártico, ambos com carga negativa. Mas a sequência genética em outras células dos pacientes mostrou, que deveria haver uma lisina, que possui carga positiva, nessa posição. Os pesquisadores concluíram que a alteração ocorreu apenas nas células B específicas, que produzem os anticorpos anômalos.


Todos os pacientes com TTII também apresentavam variantes do gene da cadeia leve, que já incluíam um aminoácido com carga negativa na posição 50. Juntamente com a alteração na posição 31, isso levou à formação de anticorpos com uma carga negativa muito forte, que se ligam facilmente à proteína PF4, que possui uma forte carga positiva. O complexo resultante entre múltiplos anticorpos e proteínas, ativa as plaquetas, fragmentos celulares essenciais para a coagulação sanguínea. Elas liberam mais PF4, iniciando uma reação em cadeia, que leva à formação de coágulos perigosos. O processo também consome a reserva de plaquetas do organismo, o que causa sangramentos incontroláveis.

 

Para confirmar a ligação, os cientistas demonstraram que versões em laboratório dos anticorpos anti-PF4 de dois pacientes, podem causar sintomas semelhantes aos da TTII em camundongos. Para testar se a substituição na posição 31 era realmente crucial para a doença, eles criaram uma versão "corrigida" com lisina, em vez de ácido glutâmico. Os anticorpos resultantes ainda se ligavam ao PF4, mas em uma taxa muito menor, e causavam muito menos coágulos em camundongos.

 

Os pesquisadores também identificaram o gatilho, para a resposta imune mal direcionada. Eles descobriram que os anticorpos recombinantes da TTII se ligavam a uma proteína do adenovírus, chamada proteína VII (pVII). Estudos posteriores identificaram a parte fundamental da proteína, com 15 aminoácidos, à qual o anticorpo se liga. O segmento forma uma estrutura chamada hélice alfa, semelhante à estrutura do PF4.

 

Juntando todas as peças, os pesquisadores levantam a hipótese, de que os pacientes que desenvolveram TTII, haviam sido previamente infectados por um adenovírus, o que preparou suas células B para reconhecer a pVII. A vacina, então, colocou essas células em ação, iniciando um processo de geração de mutações, que produz novas variantes dos anticorpos. Em algumas pessoas, esse processo gerou uma variante desfavorável com o aminoácido de carga negativa, e isso, em última análise, levou à TTII.

 

“Estou convencido”, diz Demin Wang, imunologista do Medical College of Wisconsin. “É um trabalho muito elegante.”

 

Segundo a Agência Europeia de Medicamentos, cerca de 900 casos de trombocitopenia e trombose imune induzidas por vacina, foram relatados após a imunização com as vacinas da AstraZeneca ou da J&J na Europa, incluindo 200 mortes. Há poucos dados disponíveis sobre o resto do mundo, embora mais de 3 bilhões de doses da vacina da AstraZeneca tenham sido administradas globalmente (estima-se que elas tenham salvado milhões de vidas). Dois casos de TTII foram relatados na Argentina, após a imunização com a Sputnik V, a vacina russa contra a COVID-19, que também contém adenovírus. Nenhum caso foi associado a uma vacina à base de adenovírus produzida pela empresa chinesa CanSino.

 

Não está claro, se a síndrome é mais rara fora da Europa, ou se alguns casos não foram detectados. Na maior parte do mundo, entre 40% e 60% da população possui a predisposição genética, que torna as pessoas mais suscetíveis à TTII, mas no Leste Asiático a prevalência é de apenas 20%. Outros fatores também podem contribuir para a ocorrência de casos raros.

 

As novas descobertas podem ajudar a abordar as preocupações sobre o possível risco de TTII (transferência de antígeno viral), em vacinas baseadas em adenovírus para outras doenças. Por exemplo, uma das duas vacinas aprovadas contra o Ebola usa o mesmo adenovírus da vacina contra a COVID-19 da J&J. Vacinas adenovirais, que são baratas de produzir e fáceis de distribuir, porque não precisam ser armazenadas em temperaturas muito baixas, também estão sendo desenvolvidas contra influenza, malária, meningite, tuberculose e doenças emergentes, como o vírus Nipah.

 

“Os vetores adenovirais têm um papel importante a desempenhar na produção de novas vacinas contra patógenos causadores de surtos, e também para doenças com baixo potencial de lucro com vacinas”, afirma a vacinologista Sarah Gilbert, da Universidade de Oxford, que ajudou a desenvolver a vacina da AstraZeneca. O novo estudo pode ajudar a tornar essas novas vacinas mais seguras, diz ela. É improvável que o pVII possa ser simplesmente removido do vírus, mas os cientistas podem ser capazes de desenvolver versões que não se assemelhem tanto ao PF4, afirma Gilbert. “Ainda há muito trabalho a fazer para verificar a abordagem, mas o caminho a seguir, parece mais claro.”

 



Insônia e a questão da agitação psicomotora como possível causa de abuso do Zolpidem

 

Editorial publicado no Jornal Brasileiro de Pneumologia em 08/01/2026, onde pesquisadores brasileiros afirmam que os padrões de sono se tornam um marcador biológico e fenomenológico do ritmo existencial do paciente, revelando a continuidade entre temperamento, vulnerabilidade e a expressão clínica do transtorno bipolar.

 

Durante muito tempo, acreditou-se que a apneia obstrutiva do sono (AOS) e a insônia crônica, representavam dois polos opostos. O estereótipo da AOS era o de um homem obeso e sonolento de meia-idade. Em contraste, pensava-se que a insônia era o oposto, afetando predominantemente mulheres. Estudos publicados na última década mostraram uma grande sobreposição entre AOS e insônia, conhecida como comorbidade de insônia e apneia do sono. Aproximadamente 30-50% dos pacientes com AOS preenchem os critérios para insônia, e aproximadamente 30-40% daqueles com insônia crônica têm AOS.

 

A comorbidade de insônia e apneia do sono, está associada a piores desfechos do que a AOS ou a insônia crônica, isoladamente. Na prática clínica, a má qualidade do sono é uma queixa comum entre pacientes que receberam prescrição de medicamentos indutores do sono, particularmente zolpidem, sem uma investigação aprofundada da origem e das características de sua insônia.

 

A insônia pode ser classificada como dificuldade em iniciar o sono, dificuldade em manter o sono ou despertar precoce, levando a prejuízos diurnos. É importante ressaltar que os indutores do sono não são indicados para pacientes com dificuldade em manter o sono ou que acordam mais cedo do que o desejado. Nesses pacientes, a investigação sistemática de comorbidades, particularmente transtornos psiquiátricos e apneia obstrutiva do sono (AOS), também é fundamental.

 

A indústria sempre tentou apresentar o zolpidem como um medicamento seguro, com baixo risco de dependência. Durante vários anos, houve pouco controle sobre a prescrição de zolpidem no Brasil; no entanto, há aproximadamente um ano, houve uma mudança na legislação, com maior controle sobre sua dispensação. De 2014 a 2021, houve um aumento de 246% nos chamados “fármacos Z”, que incluem zolpidem, zopiclona, ​​eszopiclona e zaleplon. De 2018 a 2022, houve um aumento de 67% nas vendas de zolpidem, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

 

O zolpidem tem uma meia-vida muito curta (de 1,5 a 3 horas), o que é um fator de risco para a tolerância, um conceito importante para o desenvolvimento da dependência. A tolerância é uma redução progressiva na intensidade do efeito de uma substância com o uso repetido, de modo que doses maiores são necessárias para atingir o mesmo efeito inicialmente obtido com doses menores. Alguns estudos têm mostrado uma tendência de queda na prescrição de benzodiazepínicos de longa duração.

 

Os dados mencionados são importantes porque a maioria dos casos de insônia é secundária a doenças psiquiátricas e clínicas; em outras palavras, a insônia é um sintoma de uma doença primária, e não uma doença em si. É importante notar que a maioria dos pacientes com insônia apresenta agitação psicomotora, que é possivelmente uma das causas mais comuns de insônia. A agitação psicomotora, seja leve ou intensa, é um sintoma central dos transtornos de humor.

 

Desde o final do século XIX, a psicomotricidade tem sido reconhecida como um dos núcleos fenomenológicos dos transtornos de humor, representando o ponto de encontro entre o corpo e a afetividade. Emil Kraepelin descreveu o retardo ou agitação psicomotora como manifestações cardinais da doença maníaco-depressiva, atribuindo à motricidade um valor diagnóstico central por ser mais objetiva do que as variações subjetivas do humor. Karl Jaspers, em sua Psicopatologia Geral (originalmente publicada em 1913), expandiu essa visão ao compreender o movimento como uma expressão visível do estado emocional, o “corpo falante” da experiência afetiva. Na tradição alemã, autores como Wernicke, Kleist e Binswanger associaram alterações psicomotoras à desorganização do “ritmo vital” e da temporalidade interna, antecipando interpretações fenomenológicas contemporâneas. No pensamento contemporâneo, Ghaemi retoma esse legado kraepeliniano, enfatizando que os transtornos de humor são essencialmente doenças da energia e da função motora vital, e que a observação psicomotora permanece o marcador clínico mais confiável da ciclotimia e da melancolia, articulando corpo, tempo e afeto em uma dimensão unificada da experiência humana.


Para Ghaemi, a doença maníaco-depressiva não é meramente uma série de episódios maníacos e depressivos, mas uma entidade clínica unificada e contínua, que expressa uma alteração fundamental no temperamento, na energia e na motricidade afetiva. Inspirado por Kraepelin, Ghaemi argumenta que essa condição deve ser compreendida como um transtorno de humor em sentido amplo, caracterizado por flutuações cíclicas na vitalidade, uma desregulação do “ritmo da vida psíquica” que afeta o pensamento, o comportamento e a emoção. Ele critica a fragmentação diagnóstica moderna (como a separação entre depressão unipolar e transtorno bipolar), por reduzir o fenômeno a categorias artificiais e descritivas. Para Ghaemi, o modelo kraepeliniano permanece válido porque reconhece a dimensão longitudinal e temperamental do transtorno, enfatizando que o cerne da doença maníaco-depressiva é uma perturbação da energia vital, e não de uma emoção isolada. Essa perspectiva implica um paradigma psiquiátrico que integra biologia, fenomenologia e história de vida, reconhecendo o curso e o estilo afetivos como centrais para o diagnóstico e o tratamento.

 

O temperamento afetivo pode ser compreendido como uma manifestação crônica, subclínica e atenuada da doença maníaco-depressiva, representando o eixo mais estável do espectro bipolar. O temperamento reflete uma disposição psicobiológica persistente, enraizada nos sistemas que regulam o humor, a energia e o ritmo circadiano. Assim, ele também se expressa nas funções fisiológicas do sono e da vigília, que constituem o correlato somático da ciclicidade afetiva. Indivíduos com temperamentos hipertímicos (sintomas maníacos subclínicos e crônicos) ou ciclotímicos, frequentemente apresentam sono reduzido, necessidade mínima de repouso e despertares precoces espontâneos, consistentes com um estado basal de hiperatividade dopaminérgica e ritmos biológicos acelerados.

 

Por outro lado, aqueles com temperamentos distímicos (sintomas depressivos subclínicos e crônicos) tendem a apresentar hipersonia, fadiga matinal e sono não reparador, expressando uma diminuição crônica da energia vital e da responsividade circadiana. Essas variações não são epifenômenos; em vez disso, são expressões contínuas do mesmo eixo energético-temporal que, em formas extremas, se manifesta clinicamente como mania ou melancolia. Assim, os padrões de sono tornam-se um marcador biológico e fenomenológico do ritmo existencial do paciente, revelando a continuidade entre temperamento, vulnerabilidade e a expressão clínica do transtorno bipolar.

 

A compreensão dos conceitos mencionados, especialmente aqueles relacionados aos temperamentos afetivos, é particularmente importante para o tratamento dessas condições, visto que a melhora do sono depende da regulação da atividade psicomotora. O tratamento dos temperamentos afetivos, particularmente os temperamentos ciclotímico e hipertímico, pode incluir o uso de doses baixas e individualizadas de estabilizadores de humor para modular a reatividade afetiva e prevenir a progressão para episódios clínicos mais graves.

 

Muitos pacientes que apresentam oscilações sutis de humor, irritabilidade ou variações crônicas de energia e sono, pertencem ao espectro maníaco-depressivo subclínico e se beneficiam de uma profilaxia leve, voltada mais para a estabilização do ritmo e da energia vital do que para a remissão completa dos sintomas. Medicamentos como lítio (abaixo de 300 mg/dia) e valproato de sódio (250-500 mg/dia) demonstraram reduzir a instabilidade afetiva sem induzir embotamento emocional e melhorar os padrões de sono após uma diminuição da agitação psicomotora.

 



Por que a gripe está tão forte este ano? Uma variante com muitas mutações oferece respostas.

 

Artigo publicado na Nature em 14/01/2026, onde pesquisadores de diferentes nacionalidades afirmam que um aumento expressivo de casos de gripe está ligado, em parte também, a uma variante que não tem sido dominante nos últimos anos, resultando em uma diminuição da imunidade natural.

 

Como milhões de pessoas acamadas podem atestar, a gripe está se alastrando pelo mundo. O vírus provocou uma onda de doenças e hospitalizações em países como o Reino Unido, a Itália e os Estados Unidos, onde “de repente, todos estão vendo não apenas casos, mas um grande número de casos”, afirma Andrew Pekosz, virologista da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, em Baltimore. Em muitas nações, a temporada de gripe começou mais cedo, e se intensificou mais rapidamente, do que o normal.

 

Então, por que esta temporada de gripe está tão grave? Os cientistas suspeitam que isso se deva, em parte, a uma nova cepa do vírus influenza que se tornou dominante. Essa variante apresenta muitas mutações importantes, o que significa que ela é muito menos semelhante à cepa usada na vacina contra a gripe, do que os vírus das temporadas anteriores. Isso pode facilitar a resistência do vírus ao sistema imunológico e às vacinas. Além disso, a cepa dominante pertence a um subtipo viral que circula há décadas, mas não era dominante nas últimas temporadas de gripe, o que significa que muitas pessoas têm uma imunidade relativamente fraca contra ele.

 

Ainda assim, há evidências que sugerem que as vacinas contra a gripe atualmente disponíveis oferecem proteção contra casos graves da doença.

 

Nos Estados Unidos, ainda é cedo na temporada de gripe “para dizer exatamente como ela se comparará com outras temporadas das últimas décadas”, afirma Jesse Bloom, virologista do Fred Hutchinson Cancer Center em Seattle. Mas “esta é, com certeza, uma temporada de gripe pior do que a média”.

 

Um ano para o H3N2

 

A temporada de gripe de 2025-2026 começou um mês antes do previsto no Reino Unido, em grande parte da Europa e no Japão, que declarou epidemia de gripe, devido ao número inesperadamente alto de infecções. Na Austrália, a temporada de gripe durou pelo menos um mês a mais do que o habitual. No Canadá, “todas as províncias e territórios registraram um aumento massivo no número de casos, simultaneamente”, afirma Eleni Galanis, diretora-geral da Agência de Saúde Pública do Canadá, em Ottawa. “E isso, obviamente, exerce muita pressão sobre o sistema de saúde.”

 

O vírus causador de muitos dos casos deste ano é um exemplo do subtipo H3N2, que evolui mais rapidamente do que outras cepas. Uma variante do vírus H3N2, chamada subclado K, tornou-se globalmente dominante em setembro, e agora é responsável por cerca de 80% das infecções por influenza em todo o mundo. “Tudo pode ser atribuído a essa variante do clado K”, diz Pekosz.

 

Incompatibilidade da vacina

 

Modelagens sugerem, que o subclado K, surgiu já em fevereiro do ano passado. O sequenciamento só foi realizado em junho, meses depois de a Organização Mundial da Saúde ter selecionado as cepas da gripe que seriam usadas como base para as vacinas da atual temporada de gripe no hemisfério norte. Os cientistas ajustam a composição da vacina todos os anos para levar em conta as contínuas mudanças genéticas no vírus.

 

Devido a esse intervalo de tempo, “há uma incompatibilidade entre a cepa da vacina e a cepa circulante”, afirma Scott Hensley, virologista da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia.

 

Mesmo assim, em um pré-print publicado em 6 de janeiro, Hensley e seus colegas descobriram que, em algumas pessoas, a vacina induz anticorpos suficientes contra o subclado K, para proteger contra a forma grave da doença, diz Hensley. O estudo ainda não foi revisado por pares.

  

Mais mutações

 

Comparado com a cepa H3N2, usada na vacina predominante contra a gripe, o subclado K apresenta 11 mutações em uma proteína chamada hemaglutinina, que forma espículas na superfície das partículas do vírus influenza. Essas espículas ajudam o vírus a se ligar e se fundir às células hospedeiras.

 

Desde 2007, as cepas circulantes do H3N2, geralmente desenvolvem de uma a três diferenças adicionais de aminoácidos, em relação à cepa da vacina contra a gripe a cada seis meses, de acordo com uma análise não publicada de John Huddleston, virologista computacional do Fred Hutchinson Cancer Center. A taxa de mutação do vírus em um período tão curto é crucial, afirma ele: "É incrivelmente alta".

 

Após a infecção pelo vírus ou a vacinação contra ele, o sistema imunológico produz anticorpos que têm como alvo a hemaglutinina. No entanto, mesmo uma única mutação na proteína, pode impedir que os anticorpos do hospedeiro se liguem às espículas virais, explica Hensley. Isso impede que os anticorpos destruam as partículas virais.

 

Os cientistas ainda não sabem quais mutações impulsionaram o aumento da disseminação do vírus, afirma Sarah Cobey, microbiologista evolucionista da Universidade de Chicago, em Illinois.

 

Retorno

 

Virologistas concordam, que um fator que contribuiu para o aumento da incidência de H3N2 nos últimos seis meses, é a circulação relativamente baixa de vírus H3 em temporadas de gripe anteriores. Na temporada de 2024-2025, o H3 foi responsável por cerca de metade dos casos de gripe nos EUA, e por cerca de 40% dos casos na Europa. Como resultado, a imunidade da população contra os vírus H3 estava relativamente baixa no início desta temporada de gripe.

 

Como os níveis globais de vacinação contra a gripe são baixos, “as infecções provavelmente têm um papel mais importante na manutenção de níveis de imunidade elevados do que a vacinação”, afirma Ian Barr, vice-diretor do Centro Colaborador da OMS para Referência e Pesquisa sobre Influenza em Melbourne, Austrália. Era improvável que o H3 fosse deixado de lado por muito tempo, diz Barr. “Ele certamente voltaria mais cedo ou mais tarde”, afirma. “E é o que está acontecendo este ano.”

 


Por que o câncer pode voltar anos depois e como impedir essa recidiva

 

Artigo publicado na Nature em 06/01/2026, onde pesquisadores de diferentes nacionalidades afirmam que estão focando em células tumorais dormentes, que podem explicar, por que alguns tipos de câncer reaparecem muito tempo depois de um tratamento bem-sucedido.

 

Quando Lisa Dutton foi declarada livre do câncer de mama em 2017, ela reservou um momento para comemorar com familiares e amigos, mesmo sabendo que sua jornada contra o câncer, poderia não ter terminado. Cerca de um terço das pessoas cujos tumores de mama são eliminados, veem a doença retornar, às vezes décadas depois. Muitos outros tipos de câncer também são conhecidos por reaparecerem nos anos seguintes ao tratamento inicial, alguns com taxas muito mais altas. “É algo que está sempre presente, e isso pode ser estressante”, diz Dutton, uma aposentada que mora na Filadélfia.

 

Como parte de seu tratamento, Dutton participou de um ensaio clínico chamado SURMOUNT. Este estudo monitoraria a presença de células cancerígenas dormentes, que muitos pesquisadores agora acreditam que podem explicar, pelo menos em parte, da recorrência do câncer. Essas células tumorais dormentes escapam do tratamento inicial, e se movem para outras partes do corpo. Em vez de se multiplicarem para formar tumores imediatamente, como é típico do câncer metastático, no qual as células se espalham do tumor principal, as células dormentes permanecem adormecidas. Elas ficam escondidas do sistema imunológico e não se dividem ativamente. Mas, posteriormente, podem despertar e dar origem a tumores.

 

Embora Dutton entendesse que seu tratamento poderia não ter eliminado todos os sinais de câncer, ela afirma ter ficado impressionada em 2020, quando células dormentes foram encontradas em sua medula óssea pela primeira vez.

 

Pesquisadores estão descobrindo células tumorais dormentes, também conhecidas como células cancerígenas disseminadas, associadas a câncer de mama, próstata, pulmão, cólon e outros tipos de câncer, e essas células estão cada vez mais implicadas, em alguns cânceres metastáticos. Estima-se que 30% das pessoas que foram tratadas com sucesso para o câncer, possa abrigar essas células, embora estudos ainda não publicados sugiram, que elas possam ser ainda mais comuns.

 

Na última década, uma série de esforços tem tentado identificar e compreender essas células dormentes, com o objetivo final de tratá-las. Diversos ensaios clínicos estão em andamento para testar possíveis terapias.

 

Embora o primeiro ensaio clínico em que Dutton se inscreveu, tenha apenas monitorado as células, ela se inscreveu posteriormente em um segundo, chamado CLEVER, que visa eliminá-las. À medida que esses ensaios avançam, questões em aberto sobre as células dormentes, incluindo o que induz a dormência e como combatê-la, estão atraindo mais pesquisadores para a área.

 

“Estamos começando a ver vários grupos convergindo para algumas das mesmas ideias, o que é sempre muito animador”, diz Cyrus Ghajar, biólogo do câncer no Fred Hutchinson Cancer Center em Seattle, Washington. Os ensaios em andamento são “uma prova do enorme progresso alcançado”.

 

Uma ameaça silenciosa

 

A existência de células tumorais dormentes foi proposta já na década de 1930, quando o patologista australiano Rupert Willis, atribuiu alguns crescimentos secundários de câncer a essas células. À medida que as pessoas que haviam sido tratadas para câncer começaram a viver mais tempo, ele e outros notaram, que a doença às vezes retornava muito mais tarde e, frequentemente, era ainda mais agressiva. Apesar dessa proposta inicial, a ideia de dormência não ganhou força por décadas.

 

Lewis Chodosh, médico e cientista da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia, lembra-se de ter enfrentado resistência quando começou a discutir a ideia com colegas há mais de 20 anos. Ninguém queria acreditar que os medicamentos para matar o câncer, pudessem estar deixando algo para trás, diz ele, e as empresas farmacêuticas não estavam interessadas em desenvolver terapias, para pessoas que pareciam ter sido curadas. Muitos cientistas da época afirmavam, que os cânceres recorrentes deviam ser novos, não relacionados a nenhum diagnóstico anterior.

 

“Só quando se acumulam evidências suficientes, é que essa forma de pensar é levada a mudar”, diz Chodosh, co-investigador dos estudos SURMOUNT e CLEVER, juntamente com Angela DeMichele, oncologista clínica da Escola de Medicina Perelman da Universidade da Pensilvânia.

 

Utilizando alguns marcadores celulares, pesquisadores identificaram células tumorais dormentes em diversas partes do corpo. Esses marcadores podem indicar aos cientistas não apenas se as células estão crescendo e se dividindo, mas também sua origem e, portanto, a qual tipo de câncer estão associadas. Os métodos, contudo, não são perfeitos, e os pesquisadores ainda estão tentando determinar, se certas células são mais propensas a entrar em estado dormente do que outras, e quais características definem essas células.

 

Ghajar e outros pesquisadores descobriram, que as células dormentes deixam o tumor primário no início da progressão do câncer, frequentemente antes mesmo do diagnóstico. Como e por que essas células se desprendem, ainda não está totalmente claro, mas, após permanecerem apenas alguns minutos em circulação, elas saem da corrente sanguínea e se concentram em certas partes do corpo, como a medula óssea e os linfonodos. Mesmo nesses nichos, as células dormentes são extremamente raras, representando apenas algumas entre milhões de células saudáveis, afirma ele. Seu estado de animação suspensa as protege de tratamentos convencionais, como a quimioterapia, que têm como alvo, as células em rápida divisão.

 

Petros Tsantoulis, oncologista clínico da Universidade de Genebra, na Suíça, afirma que a dormência difere de outros estados conhecidos, como a senescência, em que as células envelhecidas param de se dividir, enquanto se preparam para morrer. Em condições adequadas, as células dormentes podem começar a se dividir novamente. Uma vez despertadas, as células dormentes se multiplicam, formando tumores que replicam toda a complexidade do tumor original.

 

Isso levou alguns pesquisadores a sugerirem que as células tumorais dormentes podem ser células-tronco cancerígenas, um tipo de célula que, por meio da renovação e diferenciação, pode dar origem ao tumor, ou que, pelo menos, podem ser células cancerígenas com características semelhantes às de células-tronco.

 

As células tumorais dormentes apresentam algumas características comumente associadas às células-tronco, como a superexpressão de certos genes. O biólogo do câncer Joan Massagué, diretor do Instituto Sloan Kettering, em Nova York, afirma que as células-tronco passam a maior parte do tempo dormentes, despertando apenas após uma lesão ou doença, o que as torna candidatas óbvias. Ainda assim, a existência de células-tronco cancerígenas é uma ideia controversa.

 

Os cientistas parecem estar prestes a resolver algumas dessas questões em aberto. Com técnicas laboratoriais avançadas que permitem aos pesquisadores estudarem células individuais mais de perto, agora é possível identificar, isolar e enriquecer, células tumorais dormentes, para estudos posteriores. A equipe de Chodosh e DeMichele, por exemplo, está desenvolvendo um ensaio para identificar células dormentes. Chodosh afirma que ele é muito mais sensível do que as abordagens existentes e pode, em última análise, melhorar as estimativas de quantas pessoas abrigam células dormentes.

 

Ghajar, por sua vez, está adotando uma maneira diferente de pensar sobre essas células. Se uma célula dormente de um tumor de mama acaba na medula óssea, por exemplo, seria de se esperar que ela retivesse muitas características de uma célula cancerígena da mama, que permitiriam sua identificação. "Mas o que estamos descobrindo, é que essas expectativas não se confirmam", diz Ghajar, observando que, uma vez que uma célula cancerígena se espalha, ela frequentemente muda sua forma, tamanho e comportamento. “Teremos que ir além de uma definição baseada em características unificadoras e, em vez disso, mapear as mutações nessas células para mutações no tumor de origem, para definir uma célula disseminada, não pelo que achamos que ela deveria ser, mas pelo que seu genoma nos diz que ela é.”

 

Sinais de sono-vigília

 

Além de definir a dormência, os pesquisadores querem entender como e por que as células entram em dormência, e que tipos de gatilhos as despertam.

 

De acordo com Judith Agudo, imunologista do Instituto de Câncer Dana-Farber em Boston, Massachusetts, as células provavelmente entram em dormência, como uma medida de proteção. Como parte de um tumor, as células individuais podem estar protegidas do ataque do sistema imunológico, mas, uma vez isoladas, “elas podem ser facilmente eliminadas se não tomarem medidas para se esconder”, afirma. Além disso, a jornada pelo corpo até um novo nicho é estressante, e mata a grande maioria das células que se desprendem. A dormência é uma forma de persistir em um ambiente hostil.

 

Pesquisas mostraram que, enquanto as células estão dormentes, elas continuam a se comunicar com seu microambiente, e se modificam para manter ativamente a dormência. Por exemplo, as células dormentes parecem alterar os padrões de expressão de genes envolvidos na sobrevivência celular, incluindo um regulador central do metabolismo e crescimento celular chamado via mTOR. As células também exploram uma forma de autorreciclagem chamada autofagia, literalmente “comer a si mesmo”, que permite que células dormentes reutilizem recursos internos e sobrevivam com pouca influência do ambiente externo.

 

As células parecem ter uma relação complexa com o ambiente externo, incluindo o sistema imunológico. Julio Aguirre-Ghiso, diretor fundador do Instituto de Dormência do Câncer no Centro Oncológico Abrangente Montefiore Einstein, na cidade de Nova York, afirma que a resposta imune está envolvida, não apenas na indução da dormência, mas também na sua manutenção e término.

 

Ele e sua equipe demonstraram que macrófagos nos pulmões produzem uma proteína específica que se liga a células dormentes de câncer de mama e reforça a dormência. Outras pesquisas demonstraram como células dormentes podem escapar da vigilância de células do sistema imunológico, incluindo células T e células natural killer.

 

Em conjunto, as pesquisas sugerem que as células geralmente permanecem dormentes até que o ambiente imunológico seja perturbado de alguma forma, alterando o equilíbrio o suficiente, para que as células despertem com segurança. Essas mudanças podem envolver lesões ou doenças, com estudos nos últimos anos associando danos celulares e infecções por COVID-19 e influenza, a uma saída do estado dormente. Envelhecimento, fibrose, estresse crônico ou escolhas de estilo de vida, também podem contribuir para o despertar.

 

Para as células, “é uma questão de probabilidades”, diz Shelly Peyton, engenheira biomédica da Universidade Tufts em Medford, Massachusetts. As células estão constantemente tentando sair do estado de dormência após pequenas perturbações, apenas para serem mortas. “Mas nos momentos em que o equilíbrio é rompido, é quando frequentemente vemos a metástase se alastrar”, afirma.

 

O trabalho de Peyton se concentra na fibrose, o acúmulo de tecido conjuntivo fibroso em um local danificado. Isso é frequentemente associado ao câncer, porque a rigidez ajuda o tumor a crescer e auxilia na sinalização entre as células. Mas a medula óssea, onde as células dormentes geralmente residem, é macia, e Peyton está interessada em saber, se esse ambiente macio, pode ser uma característica que reforça a dormência. Ela diz que é possível que a perda natural de densidade óssea relacionada à idade (osteoporose) ou alterações hormonais em mulheres que já tiveram câncer de mama, possam desencadear a fibrose e, potencialmente, um reaparecimento do câncer.

 

Não existe uma abordagem única

 

Em 2018, os esforços para encontrar tratamentos para células dormentes receberam um impulso regulatório, quando a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA, ampliou o escopo das terapias contra o câncer, para incluir aquelas que se concentram não apenas em reduzir tumores, mas também em prevenir ou retardar o crescimento de tumores secundários. A maioria dos grupos de pesquisa que visam a dormência, busca prevenir a recorrência do câncer, eliminando as células dormentes onde elas se encontram.

 

Uma abordagem é expô-las às células imunológicas que passam pelo local. Ghajar, por exemplo, acredita que a razão pela qual as células dormentes permanecem ocultas, não se deve a alguma forma sofisticada de evasão imunológica, mas sim, ao fato de que não há células T suficientes em contato com elas. Ele e sua equipe têm investigado se o tratamento com células CAR-T, versões geneticamente modificadas das próprias células imunológicas de uma pessoa, pode aumentar a probabilidade de as células imunológicas encontrarem células tumorais dormentes.

 

Outros pesquisadores estão investigando as vias de sinalização e metabólicas, que as células cancerígenas usam para sobreviver. Tratamentos que visam células cancerígenas ativas, por meio de mecanismos que não dependem da divisão celular, podem ser eficazes também contra células tumorais dormentes.

 

Aguirre-Ghiso está focando em vias que permitem que as células sobrevivam em ambientes hostis, observando que tanto as células ativas quanto as dormentes, dependem de mecanismos semelhantes para persistir em locais onde não deveriam estar.

 

Ele cofundou uma empresa chamada HiberCell, na cidade de Nova York, que desenvolveu uma molécula que inibe a enzima PERK. Essa enzima está envolvida na capacidade da célula de retornar a um estado estável, após sofrer um estímulo estressante, conhecido como resposta integrada ao estresse. O inibidor de PERK interrompe essa resposta o suficiente, para matar as células.

 

Com base em resultados pré-clínicos, o FDA acelerou a aprovação do inibidor como terapia para o tratamento de câncer gástrico e outros tumores sólidos, e o grupo concluiu um ensaio clínico de fase I em 2023. Embora o ensaio tenha se concentrado em células cancerígenas em geral, Aguirre-Ghiso afirma, que a equipe está atualmente investigando a eficácia da molécula contra células tumorais dormentes nos pulmões e na medula óssea de modelos animais.

 

Talvez os maiores avanços tenham surgido dos esforços para bloquear a autofagia, limitando a capacidade das células dormentes de se reciclarem. "Como essas células precisam de muito pouco para persistir, privá-las de mesmo uma pequena quantidade, pode ser suficiente para levá-las a um ciclo de morte", diz Robin Anderson, pesquisador de câncer de mama no Instituto de Pesquisa do Câncer Olivia Newton-John em Heidelberg, Austrália.

 

Interromper a autofagia tem sido o objetivo do ensaio clínico de fase II CLEVER, do qual Dutton participa, bem como a base de outros dois estudos supervisionados por DeMichele e Chodosh. Os três ensaios clínicos estão testando a eficácia da hidroxicloroquina, um medicamento inibidor da autofagia, isoladamente e em combinação com outras terapias. Estas incluem medicamentos que interrompem a sinalização mTOR, agentes que bloqueiam a proliferação celular, e imunoterapias que expõem as células tumorais, tornando-as visíveis ao sistema imunológico.

 

Durante o estudo CLEVER, cerca de 50 pessoas com câncer de mama receberam hidroxicloroquina, isoladamente ou em combinação com o everolimus, um medicamento que interrompe a sinalização mTOR. Os participantes que receberam apenas hidroxicloroquina ou everolimus apresentaram uma redução nas células tumorais dormentes, mas o efeito foi mais pronunciado, naqueles que receberam a terapia combinada. A hidroxicloroquina e o everolimus, juntos, eliminaram as células tumorais dormentes em 87% dos participantes do estudo após 6 a 12 meses.

 

DeMichele afirma que o objetivo é identificar um coquetel ideal de medicamentos, antes de iniciar um ensaio clínico, com a combinação mais eficaz. Mas, embora esteja empenhada em desenvolver a inibição da autofagia, ela observa que a dormência provavelmente não será resolvida com apenas uma abordagem. Diversas terapias estão sendo investigadas à medida que os pesquisadores aprendem mais sobre a dormência, e reconhecem cada vez mais sua complexidade. "Parece que teremos um conjunto de ferramentas maior à nossa disposição, dependendo do paciente", diz DeMichele.

 

O estudo de vigilância SURMOUNT teve seu financiamento estendido, e Dutton, agora com mais de sessenta anos, concordou em ser monitorada pelos próximos 20 anos. Ela afirma que sua participação ajudará os pesquisadores a entenderem essas células, além de lhe dar tranquilidade.

 

"Ter informações é importante para mim", diz ela, "e saber o que está acontecendo me ajuda a sentir que estou fazendo o que posso para alcançar bons resultados."

 


Segurança de pandemia precisa de lideranças nacionais

 

Editorial publicado na Science em 11/12/2025, onde pesquisadores suíços afirmam que o investimento sustentado da OMS na preparação de pandemias não é opcional, é uma pedra angular da estabilidade econômica, da confiança pública e da segurança global.

 

Em um mundo que enfrenta riscos crescentes de conflitos, mudanças climáticas e doenças infecciosas emergentes, os sistemas de saúde são a primeira linha de defesa para proteger as pessoas, as economias e a estabilidade global. Embora a preparação para a pandemia seja frequentemente enquadrada como um esforço global, a prontidão só pode ser realizada com sucesso através de fortes abordagens nacionais, que trabalham ao lado de estratégias globais. As ferramentas e redes já existem para ajudar os países a conseguirem isso. O que resta é o compromisso sustentado dos governos, de financiar e implementar essas ferramentas.

 

A ameaça de outra pandemia não é teórica. A urbanização rápida, a disrupção ecológica, a mobilidade humana, a disseminação climática de organismos que transmitem doenças, e o risco de patógenos que se derramam de animais para humanos, estão convergindo para aumentar o risco de surtos em todo o mundo. Por exemplo, a gripe aviária H5N1 está infectando novas espécies animais e, ocasionalmente, humanos; os primeiros surtos do vírus de Marburg na Etiópia e Ruanda, foram relatados este ano; e nos últimos 2 anos, a Europa Ocidental viu transmissão sem precedentes de vírus da dengue e chikungunya.

 

Desde o pico da pandemia de COVID-19, os governos reduziram os investimentos em saúde pública, enquanto aumentam os gastos militares com defesa. Essas reduções são míopes. Os governos devem incorporar a preparação em seus sistemas de saúde. Uma mudança para a prontidão contínua, liderada pelo governo, é fundamental para a estabilidade nacional. Em 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou a estrutura de Preparação, Resposta e Resiliência a Emergências em Saúde (HEPR), para apoiar essa mudança em cinco áreas-chave: vigilância, atendimento clínico, proteção de comunidades, acesso a contramedidas médicas e operações de emergência. Embora a OMS forneça orientação baseada em evidências, coordenação global e suporte técnico, cada país deve traduzir estratégias de prevenção e controle, em eficácia operacional.

 

A COVID-19 demonstrou o valor do investimento nacional sustentado nas capacidades do HEPR. Países com fortes sistemas de resposta a emergências poderiam agir rapidamente, porque aprenderam com surtos anteriores. Por exemplo, as nações afetadas pela síndrome respiratória aguda grave (SARS) em 2002-2003, ativaram rapidamente operações de emergência, vigilância e sistemas de surto hospitalar, quando o SARS-CoV-2 surgiu.

 

Da mesma forma, os países da África Ocidental estavam mais bem posicionados para mobilizar testes, rastreamento de contatos e sistemas de isolamento, por causa de sua experiência com o vírus Ebola. Embora a OMS tenha emitido alertas globais e orientação técnica dentro de dias dos primeiros casos de COVID-19 no início de 2020, uma forte liderança nacional, permitiu o rastreamento precoce de contatos, testes de diagnóstico direcionados, vigilância genômica e cuidados clínicos de suporte, impedindo que os sistemas de saúde fossem sobrecarregados.

 

Além disso, muitos países agora operam centros de operação de emergência com riscos, dentro das agências nacionais de saúde pública. Estes integram a vigilância de doenças, logística de contramedida médica e cuidados clínicos, e coordenam parcerias, incluindo aquelas para desastres, como inundações e terremotos. Em paralelo, muitos governos estabeleceram agências nacionais de saúde pública ou centros de controle de doenças, para trabalhar ao lado de ministérios da saúde. Com orientação da OMS e apoio à capacitação, essas instituições desempenham um papel crítico, na detecção precoce de surtos e na prevenção de eventos localizados, de se tornarem crises globais.

 

A importância econômica da preparação é inegável. A COVID-19 causou uma perda econômica global estimada em mais de US$ 16 trilhões em 2020. Em contrapartida, o custo anual para construir e manter capacidades essenciais de preparação é uma fração desse valor, estimado pelo Banco Mundial entre US$ 10 e 11 bilhões por ano. Ainda assim, financiar a preparação continua sendo um desafio. Mecanismos globais, como o Fundo para Pandemias, criado em 2022 pela OMS e pelo Banco Mundial, destinaram mais de US$ 1,385 bilhão a países de baixa e média-baixa renda, para suprir lacunas críticas de capacidade. Além disso, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a OMS incorporaram a preparação ao Fundo Fiduciário para Resiliência e Sustentabilidade, de US$ 60 bilhões, que oferece financiamento acessível e de longo prazo para a preparação de uma nova pandemia.

 

A OMS fornece capacidade essencial de resposta a surtos e coordenação transfronteiriça, mas esses esforços complementam, e não substituem, as capacidades nacionais. Os países também têm acesso a parcerias técnicas, como a Rede Global de Alerta e Resposta a Surtos (GOART), criada em 2020, que conecta instituições de pesquisa, universidades e organizações de saúde, para fornecer conhecimento especializado e apoio operacional. O Corpo Global de Emergências de Saúde foi lançado pela OMS em 2023, para fortalecer a prontidão da força de trabalho por meio de treinamento e mobilização. No entanto, a preparação sustentada depende, em última análise, de investimentos nacionais em equipes médicas de emergência, profissionais de saúde pública e agentes comunitários de saúde, bem como de esforços de construção de confiança, desenvolvidos em conjunto com líderes locais e a sociedade civil.

 

Em última análise, a preparação nacional é uma escolha estratégica. O Acordo de Pandemia da OMS 2025 e a regulamentação internacional de saúde, sinalizam um compromisso político crescente com a responsabilidade global compartilhada. Porém, a vontade política por si só não é suficiente. O investimento sustentado na preparação não é opcional, é uma pedra angular da estabilidade econômica, da confiança pública e da segurança global.

 


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